Amigo é coisa pra se guardar…
…com muito carinho, do lado esquerdo do peito, ainda que tenhamos perdido o contato.
Era uma vez duas amigas. Conheceram-se na faculdade, aos poucos ficaram amigas. Durante os quatro anos de curso, a amizade foi crescendo, se consolidando, e as duas acabaram se tornando as melhores amigas, daquelas de se abrir a alma, de ser quem se é e falar bobagem, de compartilhar alegrias e tristezas, de brigar (quase nunca) e dar risada juntas (quase sempre).
A faculdade acabou, elas seguiram seu caminho. Que começou com o casamento de uma (e a outra foi a madrinha), e com a outra voltando para sua cidade. Com a distância, as trocas de cartas, telefonemas, algumas visitas. Aos poucos foram perdendo o contato, e o tempo foi passando.
E o tempo passou. Dezenove anos depois da última carta (quem escreveu a última carta? nem me lembro…), mas sempre na lembrança. No dia do aniversário, o pensamento de parabéns enviado aos céus na esperança que a amiga o receba, de algum modo.
E chegamos à era da Internet. Todo mundo diz que o Orkut é ótimo para se encontrar pessoas que não se via há muito tempo, que tal experimentar? Vamos lá.
Eu não tenho perfil no Orkut. Mas minhas filhas têm. Filha, empresta o seu perfil, preciso procurar uma pessoa. Procura de cá, procura de lá, até que achei. E lá estava minha amiga. A mesma carinha séria que eu me lembrava. E um perfil sério também, nada de bobagens, poucos amigos (só os mais chegados), poucas comunidades. Mudou de carreira, mudou de país. Era ela mesmo, reservada para o mundo, mas o bichinho brincalhão que eu me lembrava, por dentro.
Mandei uma mensagem numa garrafa; ou seja, mandei um scrap. Meio tímido, me apresentando, lembra de mim, sei lá, vai ver que ela já esqueceu daquela amiga boba da faculdade, mas não custa tentar.
Alguns dias depois (bem que eu achei que o Orkut não era mania para ela, mas apenas um utilitário), minha filha me avisa: Mãe, sua amiga respondeu!
E respondeu mesmo! Um scrap simpático, dizendo que ficou felicíssima por me encontrar, mandou-me o seu endereço de e-mail (e disse que já havia me mandado um e-mail), era minha amiga de volta! Já começamos a trocar mensagens e contar tudo tudo, afinal, são 19 anos de novidades para pôr em dia…
É mesmo uma alegria reencontrar uma amizade depois de tanto tempo. Pensamos que com o tempo as pessoas saem de nossas vidas, outras surgem, que a vida não pára e que é bobagem, saudosismo, fixar-se no passado. De certa forma é mesmo. Vamos viver o presente, esperar o futuro. Mas as pessoas do passado que realmente significaram algo para nós na verdade não saem de nossas vidas. Elas ficam do lado esquerdo do peito, mesmo que o tempo e a distância digam não. Às vezes temos a sorte de poder reencontrá-las, às vezes não. Ás vezes nem podemos, pois para onde elas foram nós não podemos seguir. Mas sempre temos a opção de lembrar, e enviar um pensamento para os céus.
Com certeza todos o recebem, ainda que nem todos possam responder. Mas é mesmo uma alegria quando conseguimos reencontrar uma pessoa assim. Bem-vinda, minha amiga!
Cristine Martin
escrito em 19/9/06