Rato de Biblioteca



7/11/2007

Sybil

Filed under: Estante de Filmes, Estante de Livros, Filme X Livro — Cristine @ 21:21

SYBIL

Sybil conta a história verídica da paciente psiquiátrica Sybil Isabel Dorsett, que sofria de Transtorno Dissociativo de Identidade (também conhecido como MPD – Multiple Personality Disorder ou Transtorno de Múltiplas Personalidades, e que passou a ser oficialmente chamado de DID - Dissociative Identity Disorder a partir de 1994). Ao longo do tratamento, foram identificadas 16 personalidades de Sybil (incluindo a personalidade atuante, e várias personalidades femininas e masculinas, de diversas idades).

Shirley Ardell Mason

Após a morte de Sybil em 1998, sua verdadeira identidade foi revelada; ela era Shirley Ardell Mason, uma artista e professora de arte; o pseudônimo Sybil foi criado pela escritora Flora Schreiber e pela Dra Cornelia Wilbur para proteger a privacidade da paciente. Muito talentosa, Sybil pintava e desenhava em vários estilos diferentes; na verdade, cada personalidade tinha um estilo artístico próprio.

Sua história foi contada em livro, escrito por Flora Rheta Schreiber e lançado em 1973; a autora foi convidada a escrever o livro pela Dra Wilbur, a psiquiatra de Sybil. Flora e Sybil conviveram por três anos durante o tratamento, e por muitos anos, como amigas, até a morte da escritora, em 1988. O livro foi aprovado pela paciente e pela psiquiatra, e tornou-se um sucesso de vendas logo após o lançamento.

Em 1976, foi lançado um filme contando a história de Sybil, estrelado por Sally Field (Sybil) e Joanne Woodward (que já havia representado uma paciente com múltiplas personalidades em “As Duas Faces de Eva”, de 1957, e aqui representou a psiquiatra, Dra Wilbur). O filme não foi baseado no livro, mas o roteirista (Stewart Stern) teve acesso à documentação psiquiátrica do caso e dramatizou alguns fatos no roteiro (como a criação do personagem Richard, namorado de Sybil, que não existia no livro).

Tammy Blanchard como SybilEm 2007, a HBO lançou uma refilmagem da história, desta vez baseada apenas no livro de Flora Schreiber. O filme é estrelado por Tammy Blanchard (Sybil) e Jessica Lange (Dra. Wilbur; Jessica havia representado outra mulher com problemas psiquiátricos, a atriz Frances Farmer, no filme “Frances”). Esta versão é mais fiel ao livro, embora haja alegações que o livro não seja uma história de um caso psiquiátrico, mas uma narrativa ficcionalizada, exagerada com o fim de chocar, e o filme ainda mais que o livro (veja aqui) . Livro e filmes mostram as torturas e repressões causadas pela mãe esquizofrênica, o pai ausente, o avô fanático religioso e a morte prematura da avó, único ponto de afeto e aceitação na vida da criança, e a conseqüente fragmentação da personalidade da paciente, numa tentativa de suportar os abusos sofridos.

Livro

FishermanAs personalidades de Sybil começaram a “nascer” a partir dos três anos e meio, e foram surgindo durante a infância e adolescência; havia 15 delas, além da personalidade atuante, Sybil, uma mulher exaurida e apagada, cujas emoções ficavam a cargo das outras personalidades. Entre elas, havia Vicky, uma moça francesa e segura de si, que reunia todas as memórias e consciência das personalidades; Peggy Lou, que exprimia a raiva; Peggy Ann, cujo traço principal era o medo; Mike e Sid, dois rapazes (aspectos de Sybil que identificavam-se com o pai e o avô), Nancy Lou, que exprimia a repressão religiosa sofrida por Sybil, e uma loura, que existia desde 1946 mas só revelou-se na fase final da análise, e que representava o lado adolescente de Sybil.

A Sybil atuante sofria lapsos de memória desde a infância, e não se lembrava do que tinha feito ou visto quando alguma das personalidades assumiam o controle de seu corpo; tinha dificuldades com matemática, pois durante dois anos (dos oito aos dez anos) quem esteve no controle foi Peggy Lou, após a morte da avó; Peggy Lou sabia multiplicar, mas Sybil tinha dificuldades com as contas, pois não se lembrava de tê-las aprendido na escola. Sybil sentia-se como se seu tempo tivesse sido roubado.

Em 1945, aos 22 anos, Sybil consultou-se com a Dra Wilbur em Omaha. Após alguns meses o tratamento foi interrompido, quando Sybil esteve doente e sua mãe ligou para avisar a Dra Wilbur que a filha não poderia comparecer às sessões. Quando restabeleceu-se, Sybil ligou para a médica e soube que esta havia se mudado para Nova York. Só pouco antes de morrer, em 1948, a mãe de Sybil lhe contou que nunca chegara a ligar para a Dra Wilbur. Isto reacendeu em Sybil o desejo de continuar o tratamento. De 1948 a 1954 ela esperou até poder mudar-se para Nova York e entrar novamente em contato com a Dra Wilbur.

Blue is the Color of LoveO tratamento prosseguiu por onze anos, e as personalidades foram surgindo durante a análise; o livro descreve, através das memórias destas personalidades, todo o horror da infância de Sybil, com abusos físicos e sexuais e maus tratos por parte da mãe, que foi diagnosticada esquizofrênica, mas nunca recebeu tratamento psiquiátrico; a ausência do pai, que ignorava o que se passava em casa e confiava os cuidados e a educação da menina exclusivamente à mãe; a perda prematura da avó, que a amava (o que causou a atuação de Peggy Lou por dois anos), e do amigo Danny, com quem sentia-se aceita e segura, e que mudou-se para o Texas (o que fez que Vicky assumissse o controle).

“A Dra Wilbur pôde constatar que a maior parte daquilo que Sybil havia sido, muito de sua libido e muitas de suas aquisições e comportamentos, havia sido entregue às outras personalidades que se haviam criado na primeira dissociação. O que apareceu em Sybil foi uma personalidade drenada, cujo medo inicial da mãe se havia ampliado a ponto de incluir não somente figuras maternais, mas todas as pessoas. Exaurida de medo, essa personalidade drenada tinha resolvido nunca mais voltar a assumir o risco de se envolver com seres humanos. Mera personalidade atuante, desprovida de sentimento, era também uma personalidade despojada, porém protegida por poderosas defesas construídas internamente contra as verdadeiras forças que a tinham dividido. Uma vez que não queria voltar do hospital para casa, a criança original não foi, mas enviou duas defensoras internas que seriam suas delegadas para representá-la.”

Brooklin BridgeAo longo dos anos de análise (e com um período de uso de pentotal, logo retirado pelo risco de dependência, e de hipnose) Sybil soube pela Dra Wilbur da existência das diversas personalidades, e passou da recusa à aceitação, e por fim à integração, quando enfim tornou-se a nova Sybil, capaz de sentir e expressar emoções, e com plena consciência e memória de todas as personalidades. Apenas após integrar-se com Peggy Lou e expressar seu ódio pela mãe ela pôde recuperar sua capacidade para a raiva e outras emoções.

” Mas o mais notável de tudo era que, enquanto era devolvida a Sybil a capacidade de irritar-se, desimpediam-se simultaneamente os caminhos para outras emoções. O ato de expresar sua ira contra Hattie Dorsett havia transformado Sybil numa mulher que já não estava desprovida de emoções. Sybil havia começado a distanciar-se do vácuo, dirigindo-se para a unidade.”

Street CornerApós o fim do tratamento, Sybil mudou-se e começou a trabalhar como terapeuta ocupacional em um hospital, e mais tarde como professora de arte. Durante toda a vida esteve em contato e manteve a amizade com Cornelia Wilbur e Flora Schreiber. Em uma carta a Flora, ela comenta: “Veja só! Há quase um ano. É o primeiro ano contínuo de minha vida. É formidável ver como os dias se desdobram em semanas e as semanas em meses, sobre os quais posso relancear os olhos e recordar (…) As pessoas simplesmente encaram tudo como corriqueiro, e acho que perdem o significado real das coisas.”

Controvérsia

O livro e o filme foram muito bem recebidos, e o Transtorno Dissociativo de Identidade, que era relativamente raro antes do caso Sybil, teve um grande aumento no número de casos diagnosticados, especialmente nos anos 80 e 90; nos anos de 1953-54, quando Sybil foi diagnosticada, havia apenas 11 casos documentados de personalidades múltiplas, e nenhum com tantas personalidades como Sybil. O único outro caso documentado de paciente com personalidades múltiplas viva naquela época era “Eve” (cuja história foi contada em As Duas Faces de Eva). Na época da publicação de “Sybil”, em 1973, havia cerca de 75 casos documentados de MPD (Transtorno de Múltiplas Personalidades); nos 25 anos seguintes, foram diagnosticados cerca de 40.000 casos, quase todos nos Estados Unidos; especialistas começaram a duvidar da validade de tais diagnósticos, e culpam o livro por incentivar a indústria de charlatães especializados no tratamento de vítimas de abusos, dos quais o paciente nem mesmo se recorda. Pesquisadores tentam agora analisar o caso que começou tudo isto, e separar o que é realidade do que é ficção.

No final do livro, Flora Schreiber esclarece que “Esta obra é simultaneamente romance e relatório científico: ficção, na medida em que recria as situações e emoções que envolveram a personagem; ensaio, desde que conserva a verdade científica do tratamento”. Para saber até que ponto a verdade científica do tratamento é retratada no livro, seria preciso ter acesso aos arquivos da Dra Wilbur; estes só poderiam ser trazidos a público a partir de 2005, o que ainda não foi feito; o Dr. Herbert Spiegel, psiquiatra que chegou a auxiliar a Dra Wilbur no tratamento de Sybil, afirmou após a morte das três principais envolvidas (paciente, psiquiatra e escritora), que o livro era uma fraude. Por que esperou tanto tempo para fazer tal afirmação?

LaboratoryO Dr Spiegel atuou como psiquiatra substituto durante ausências ocasionais da Dra Wilbur, e em uma destas ocasiões, conta ele, Sybil perguntou se ele queria que ela fosse ‘Helen’. “Um dia eu estava conversando com Sybil sobre um acontecimento e ela me perguntou se eu queria que ela fosse Helen para falar sobre aquilo e eu disse que não era necessário, por quê pergunta, e ela disse bem, quando falo sobre isto com a Dra Wilbur ela quer que eu seja Helen e eu disse a ela se acha que deve ser Helen pode fazê-lo, mas isto não é necessário e então ela pareceu um pouco surpresa e disse bem, se não é preciso eu não o farei e eu disse OK, para mim está bem, então de certo modo ela conseguiu falar sobre aquilo como um acontecimento de sua vida como Sybil. Foi quando eu tive a impressão que ela estava sendo sugestionada pela dra Wilbur para viver certas experiências e as recordasse como sendo de outra pessoa. Quando Sybil estava comigo as outras personalidades não apareciam. Era como um jogo que ela aceitava ao trabalhar com Wilbur, mas brincávamos a respeito quando trabalhávamos juntos.” (link)

O Dr Robert W. Rieber, que trabalhou com o Dr Spiegel, conta que em 1972 recebeu de Flora Schreiber algumas fitas para análise de voz, que ficaram esquecidas por muitos anos. Vinte e cinco anos mais tarde, após a morte das três mulheres, o Dr Spiegel lhe recordou a existência das fitas. Ao ouvi-las, Rieber viu que eram reuniões entre a psiquiatra e a escritora, para discutir o livro. Como deveria ser construído? O que deveria ser estabelecido nas mentes dos leitores? Segundo Rieber, as personalidades não existiam na mente de Sybil – a médica as estava ‘plantando’ sob o efeito da hipnose. Devido ao clima de confiança existente entre as duas, a paciente aceitava estas sugestões com o desejo sincero de ajudar em sua cura.

“Por tudo o que descobri, concluí que as três mulheres – Wilbur, Schreiber e Sybil – foram responsáveis pela construção do mito moderno do distúrbio de múltiplas personalidades. Uma aberração psicológica, tão bizarra e rara que quase não mereceu destaque na maioria dos livros acadêmicos antes de 1973, o distúrbio de múltiplas personalidades recebeu uma repentina respeitabilidade e aceitação. E não era um distúrbio limitado aos Estados Unidos da América. “O MPD está sendo exportado dos Estados Unidos como a Coca Diet e a Gap”, escreveu a crítica social Elaine Sowalter no London Observer.” (link)

Impressions of AspensNo documentário da BBC “Mistaken Identity“, de 1999, o Dr Herbert Spiegel e seu filho, Dr David Spiegel (que ao contrário do pai, trata pacientes de MPD aceitando a existência das outras personalidades e conversando com elas como pessoas independentes da paciente original) foram entrevistados, assim como duas pacientes com MPD. Após a edição, o depoimento das pacientes no documentário confirma a teoria que as outras personalidades surgiram em conseqüência de abusos na infância, e que podem ter sido sugeridas pelos terapeutas. Mais tarde, as pacientes queixaram-se (link) de seu depoimento ter sido cortado e editado, no que poderia ter sido uma boa oportunidade de mostrar como é na verdade a vida de um paciente com MPD; que nem sempre o transtorno está ligado a abusos na infância, mas que pode ser um daqueles mistérios da mente humana que não são completamente compreendidos, e que elas não se vêem como perturbadas, mas encaram a existência das outras personalidades como um estado normal de si mesmas.

Muitas pessoas foram errôneamente diagnosticadas com Transtorno Dissociativo de Identidade, e levadas a crer que haviam sido vítimas de abusos na infância, aceitando “lembranças” que antes não tinham. Em um documentário de 2001 do canal Discovery sobre Personalidades Múltiplas foi mostrado o caso de uma mulher que, após ser “diagnosticada” com múltiplas personalidades por ter sofrido ‘abusos’ e participado de ‘rituais satânicos’, tornou-se extremamente dependente do psiquiatra, afastou-se da família, gastou todo seu dinheiro no tratamento, tornou-se deprimida e, quando o dinheiro acabou e o psiquiatra interrompeu o tratamento, começou a questionar as “lembranças” e aos poucos percebeu que nada daquilo havia realmente acontecido. É claro que há casos em que o diagnóstico é feito corretamente, e como no caso de Sybil, um tratamento analítico pode levar à cura. Mas há muitos charlatães e enganos bem-intencionados que podem causar danos terríveis.

Impressions of FalkirkNo caso de Sybil, a verdadeira Shirley Mason conseguiu levar uma vida normal e tranqüila desde o fim do tratamento, em 1965, até morrer em 1998. Com os rendimentos do livro, ela e a Dra Wilbur mudaram-se para Lexington, Kentucky, onde mantiveram a amizade. Shirley nunca se casou nem teve filhos; ela lecionou arte no Rio Grande College, e tornou-se uma artista de sucesso, dando aulas de pintura em seu ateliê. Quando Cornelia ficou doente, Shirley cuidou dela. Após a morte da médica, em 1992, Shirley tornou-se reclusa. Ela cuidava do jardim, dos gatos e pintava, até que a artrite a impediu de segurar os pincéis. Em 1997, o câncer no seio voltou, após uma remissão de muitos anos. Shirley então tornou-se ainda mais reclusa e morreu em paz, em sua casa, aos 75 anos. Pouco antes, contou a uma amiga que havia chegado a um ponto em que havia perdoado sua mãe. Ela havia se livrado da raiva.

Em recente entrevista sobre a refilmagem de Sybil, a atriz Sally Field comenta sobre o Transtorno Dissociativo de Identidade: ” Todos somos múltiplas personalidades, de certo modo, e acho que ser mentalmente saudável, aprender o que são estas várias personalidades e aceitá-las em nossa vida é o que realmente importa. Acho que o conceito de Carl Jung sobre a sombra – o lado escuro que todos nós temos, as monstruosidades das quais todos somos capazes – é na verdade um tipo de personalidade múltipla. Ela torna-se um problema de saúde mental quando atinge uma intensidade que afasta dramaticamente a pessoa de sua consciência e a impede de integrar a informação em suas mentes”.

Tradução

Apesar do livro ser muito interessante e do texto fluir com facilidade, há nele alguns erros de tradução, como traduzir pretend por pretender, e Brave New World como Bravo Novo Mundo, em uma citação d’A Tempestade, de Shakespeare.

Links relacionados:

Manual da Merck sobre Transtorno Dissociativo de Identidade

Artigo sobre DID na Wikipedia: Inglês / Português

A Arte de Shirley Mason

Astraea’s Web – site sobre Transtorno Dissociativo de Identidade

(Os quadros que ilustram este artigo são de Shirley Ardell Mason)

7/04/2007

Forrest Gump

Filed under: Filme X Livro — Cristine @ 15:51

Depois de ganhar tantos Oscars, este filme tornou-se uma unanimidade; um dos melhores dramas já realizados, com toques sutis de comédia. A história do rapaz inocente, que participa de alguns dos momentos mais importantes da história americana entre as décadas de 50 e 80, é hoje um dos grandes favoritos de todos.

Qual o segredo deste filme? Entre a magnífica atuação de Tom Hanks, a direção segura de Robert Zemeckis, os efeitos especiais que confundem ficção com realidade, a trilha sonora inesquecível (incluindo a música-tema de Alan Silvestri), o brilho dos coadjuvantes Sally Field, Robin Wright Penn, Gary Sinise, e o roteiro de Eric Roth, adaptando o romance de Winston Groom, ficamos com todos.

Tom Hanks já provou o grande ator que é; com este filme, conseguiu a façanha de ganhar dois Oscars de Melhor Ator em anos consecutivos. Merecido, principalmente pela cena em que ele descobre que tem um filho e pergunta a Jenny se ele é normal. A expressão em seu rosto transmite toda a emoção sentida pelo personagem, da alegria à preocupação e ansiedade, e finalmente ao alívio e novamente à alegria.

Outras cenas inesquecíveis são quando Jenny volta à sua casa da infância e nela atira as sandálias, e depois pedras, e então Forrest comenta: “Às vezes, acho que nunca há pedras suficientes” (Sometimes, I guess there’s just not enough rocks). Ou quando Jenny pergunta:“- Você teve medo no Vietnã?- Sim. Bem…eu- eu não sei. Às vezes a chuva parava o suficiente para que as estrelas aparecessem.. e então era bonito. Era como antes do pôr-do-sol na baía. Havia sempre um milhão de estrelas na água… como aquele lago na montanha. Era tão claro, Jenny, parecia que havia dois céus, um em cima do outro. E então no deserto, quando o sol nascia, eu não podia dizer onde o céu acabava e a terra começava. É tão bonito.- Eu queria ter estado lá com você.- Você estava.”

Os efeitos especiais permitiram a Forrest ”contracenar” com personagens históricos como John Kennedy, Richard Nixon, John Lennon, Lyndon Johnson e outros. Juntamente com uma perfeita reconstituição dos cenários e figurantes, podemos ver Forrest na passeata em Washington, recebendo a Medalha de Honra na Casa Branca, numa entrevista na TV com John Lennon. O toque de comédia fica evidente no episódio de Watergate, ou quando Forrest fala de seu antepassado homônimo, que pertencia a um “tipo de clube” em que usavam capuzes brancos; ou ainda quando conta que Ten. Dan investiu o dinheiro de Forrest em uma ‘companhia de frutas’ (Apple).

Mas a essência do filme é a inocência de Forrest, e seu amor por Jenny. Uma garota confusa, que passou por situações difíceis e reagiu a elas do modo errado, fugindo de si mesma, ao mesmo tempo em que tentava se encontrar. Seu porto seguro é Forrest, que a amou incondicionalmente toda sua vida, e em quem ela encontra o amor e a segurança que buscou em vão, antes de voltar para casa.

Sempre nos lembraremos de frases memoráveis como “A vida é uma caixa de chocolates: você nunca sabe o que vai encontrar”, ou “Estúpido é quem faz estupidez”, ou ainda “Meu nome é Forrest Gump. As pessoas me chamam de Forrest Gump”, e “Corra, Forrest, corra!”.

E isso é tudo o que eu tenho a dizer sobre isto.

Filme x Livro

Ou não. Depois de assistir ao filme muitas vezes, li o livro de Winston Groom, no qual o roteiro foi baseado. Há grandes diferenças entre a história do filme e a história do livro. O Forrest do filme é um rapaz essencialmente inocente, mas com consciência de suas limitações mentais; no livro, ele tem mais malícia, embora também seja consciente de sua situação. A inocência não está presente; ele sabe que é limitado intelectualmente, mas é um pouco “malandro” ao tirar proveito disto em algumas situações.

O Forrest do livro é um idiot savant; um idiota sábio, como o autista de Dustin Hoffman em Rain Man; em um episódio, ele se revela um ótimo aluno de Fisica na Universidade resolvendo equações complicadas sem compreender a teoria, embora não conseguisse distinguir ‘Física’ de ‘Educação Física’, e aprende a tocar harmônica sozinho. Mesmo com tais talentos, ele não é autista, e revela uma grande percepção das coisas ao seu redor. No início do livro (usando a famosa comparação que foi alterada - para melhor - no filme), ele comenta:

“Deixem-me falar uma coisa: ser um idiota não é uma caixa de chocolates. As pessoas riem, perdem a calma, te tratam como lixo. Dizem que as pessoas devem tratar bem quem está em dificuldades, mas vou dizer – nem sempre é assim. De qualquer maneira, eu não posso reclamar, porque acho que tive uma vida interessante, por assim dizer.”

Interessante é pouco; episódios inteiros que estão no livro não foram contados no filme; Sue, o macaco, Rachel Welch, Forrest como astronauta, o resgate de Mao, a luta-livre, os pigmeus canibais, o campeonato de xadrez, são algumas das histórias que só existem no livro. Muito da temporada universitária de Forrest e Jenny é resumido, e o final da história de Jenny e Forrest é completamente diferente do que no filme.

Apesar do livro ser muito interessante, falta-lhe a magia e o lirismo que Eric Roth e Robert Zemeckis criaram. Na maioria das vezes eu prefiro o livro ao filme, mas esta foi uma agradável exceção.

9/02/2007

Casa de Areia e Névoa

Filed under: Filme X Livro — Cristine @ 17:50

Por ocasião dos Oscars de 2004, ouvi falar deste filme; três indicações (melhor ator, Ben Kingsley; melhor atriz coadjuvante, Shoreh Agdashloo, e melhor trilha sonora), me pareceu muito bom. Mas como eu realmente não tenho pressa em assistir aos lançamentos, só fui assisti-lo quando passou na TV paga. O filme realmente é muito bem feito, boa fotografia (o diretor, Vadim Perelman, era diretor de comerciais quando leu o livro , adorou e decidiu realizar seu primeiro filme de longa metragem; escreveu o roteiro em conjunto com o autor do livro (André Dubus III) e o resultado é um visual deslumbrante e um roteiro bem fiel ao livro), os atores estão ótimos… mas aí vem a história.

Kathy é uma mulher que foi abandonada pelo marido, ambos ex-viciados, e que após a separação deixou de abrir a correspondência, entre outras coisas típicas de quem passou por uma dessas. Mas na correspondência descartada estava uma cobrança de taxas municipais (cobradas indevidamente), o que faz com que ela perca a casa e esta vá a leilão.

Massoud Behrani é um ex-oficial iraniano que teve de abandonar seu país quando da queda do Xá; americano naturalizado, ele mora com a família em São Francisco, e trabalha como operário de limpeza de estradas durante o dia e de balconista em uma loja de conveniências, à noite. Mas a família e os conhecidos não sabem disto; ele mantém uma imagem de prosperidade, gastando aquilo que não pode para alugar um apartamento de luxo no bairro onde moram os iranianos ricos, e relacionar-se com pessoas prósperas, para que possa casar bem sua filha. Após o casamento dela, ele decide investir o pouco capital que lhe resta em uma casa comprada em leilão, revendê-la pelo preço de mercado e iniciar uma carreira de especulação imobiliária.

Acontece que a casa comprada em leilão é a de Kathy, que de repente se vê sem ter aonde ir, sem marido, sem amigos, e sem ter contado nada à família , nem mesmo sobre a separação. Um policial (Lester) aproxima-se dela e aos poucos surge um envolvimento entre eles, que cresce e faz que ele abandone sua família.

Nem Kathy abre mão de conseguir sua casa de volta (dela e do irmão, herança do falecido pai), nem Behrani abre mão de ficar com a casa e obter lucro (merecido, segundo ele) com sua venda. As coisas começam a se complicar quando Lester resolve intervir em defesa de Kathy, e a partir daí tudo acontece muito rápido, decisões, emoções e atitudes com conseqüências inesperadas e um final trágico.

Fiquei realmente sem fôlego ao fim do filme; como as pessoas, por teimosia, cobiça, preconceitos e medo, podem tomar atitudes que acabam levando a um caminho sem volta? Como as coisas poderiam ser diferentes se a cadeia de acontecimentos tivesse sido interrompida; como um mau julgamento ou uma impressão errada sobre os sentimentos de outra pessoa pode levar a uma atitude precipitada… É um daqueles filmes que nos deixa pensando por dias, sobre o que aconteceu e o que ‘poderia’ ter acontecido se… e graças a Deus que é apenas ficção.

Filme x Livro

Algum tempo depois li o livro (em inglês; ainda não foi traduzido para o português). A primeira parte é narrada em primeira pessoa, alternadamente entre Kathy e Behrani; esse recurso mostra claramente o pensamento de cada um, os preconceitos e a negação que cada um faz de seus próprios defeitos ou problemas; ela, ao racionalizar seu vício (álcool, no filme, e cocaína e álcool, no livro), atribuindo boa parte da culpa ao ex-marido viciado; ele, ao atribuir sua decadência material às injustiças sofridas pela elite militar que ajudava o ex-Xá do Irã, e atribuindo a culpa de tudo ao serviço Secreto (SAVAK), que, com sua truculência, ajudou a causar a revolta que levou à queda do regime do Xá. Ambos se sentem injustiçados, e não abrem mão do que crêem ser seu por direito. Behrani não entende a revolta da esposa, e seu caráter melancólico desde que a família teve de deixar o Irã; afinal, ele não fez o possível para proteger a família? “ Pois ela estava muito errada a respeito do meu envolvimento com a polícia secreta, SAVAK. Eu pouco tinha a ver com os assuntos deles. E é claro, ela nunca antes reclamou de todos os nossos privilégios; ela nunca reclamou das criadas e soldados que ela usava na manutenção da casa; ela nunca reclamou das viagens para esquiar nas montanhas do norte, ou de nosso bangalô, sobre o Mar Cáspio em Chahloose; ela nunca reclamou dos vestidos finos que ela podia usar nas festas dos generais e juízes e advogados e atores e cantores famosos; ela nunca reclamou quando numa tarde de domingo eu ordenava a Bahman para levar minha família ao cinema mais fino em Teerã e é claro havia uma longa fila de pessoas esperando, mas eu estava vestido em meu uniforme então nós nunca esperávamos, nós nem mesmo pagávamos; éramos conduzidos ao balcão reservado às Pessoas Muito Importantes, longe da multidão. E sim, eu via com freqüência o medo por trás dos sorrisos daqueles gerentes de cinema enquanto eles acenavam e nos conduziam pessoalmente aos nossos assentos, e sim, ninguém que esperasse na calçada ousava fazer uma queixa que eu pudesse ouvir; mas não havia sangue em meus dedos. Eu comprava jatos. Eu não era da SAVAK.” No livro também é mais claro o preconceito dos personagens: Behrani pensa que os americanos são um povo fraco, sem disciplina, que não merecem a prosperidade que têm; em sua narrativa, ele se refere a Kathy como gendeh, prostituta, talvez pelas suas roupas, ou pela bebida. Em um momento de confronto com Kathy, ele lhe diz: “Em meu país, você não seria digna de erguer seus olhos para mim. Você é nada. Nada.” A atitude em relação às mulheres também se revela em seus comentários sobre a esposa, Nadereh: “Minha esposa tem cinqüenta anos, mas ela falava como uma garotinha, uma recém-casada. Eu pensei que talvez ela estivesse desapontada comigo, mas então reparei em seu sorriso, no modo como ela mantinha seu queixo baixo, olhando para mim com aqueles olhos de gavehee, e enquanto ela tomava minha mão e me levava pelo corredor de volta a seu quarto, meu coração era uma pedra pesada caindo na água e minha respiração estava suspensa como a de um garoto que avalia sua boa fortuna.” Outro episódio revelador é a morte da prima, Jasmine, morta com um tiro pelo pai quando este soube do caso amoroso da filha com um americano; Behrani diz que, apesar do comportamento impróprio da prima, nunca agiria como o tio, resolvendo as coisas com um revólver: “Eu odiei meu tio, acreditando que ele agiu arrebatadamente e com muita paixão. Nós somos uma família educada; não precisamos viver como a classe de camponeses, resolvendo nossas questões com sangue derramado”. Em outro momento ele admite que já “levantou a mão” para a esposa: “Eu nunca aprovei a violência contra a mulher, apesar que sim, eu bati em minha esposa em uma ocasião, mas me arrependi profundamente do incidente. Uma vez em nossa casa em Teerã, eu bati na face de Nadi por erguer a voz para mim na presença de um jovem oficial. Seus olhos se encheram de tristeza e humilhação e ela saiu chorando da sala. Mais tarde naquela noite, quando ela ainda não falava comigo, eu levantei a manga de minha camisa, acendi um charuto turco e pressionei a brasa em minha carne. Eu queria chorar mas não o fiz. Acendi o charuto de novo e me queimei novamente. Fiz isto cinco vezes, e pedi perdão a Deus a cada queimadura da minha carne.” O preconceito também fica evidente na pessoa de Lester, que considera o iraniano um cidadão de segunda categoria, que roubou a legítima propriedade de Kathy; e no modo como os trata e se sente a seu respeito: “Lester estava com sede e queria beber do chá que a mulher do coronel lhe servira, mas fazê-lo naquele momento pareceria um movimento conciliatório, como se ele fosse um cão expondo sua garganta a um cão mais forte. Ele olhou novamente para a foto emoldurada na parede, de Behrani discursando para o Xá do Irã, um homem sobre quem Carol contara, há muitos anos, ter mandado fuzilar centenas, talvez milhares de pessoas em uma tarde por terem ousado um protesto desarmado contra ele e sua comitiva. ( … ) Ele começou a se sentir amedrontado, e quis chutar o coronel nos dentes, este amigo de ditadores, este homem que se recusou a vender de volta a Kathy sua casa “.

Na segunda parte do livro (talvez pelos fatos escaparem à ciência dos dois personagens principais), aparece um narrador em terceira pessoa, onisciente, nos momentos em que Lester conduz a ação e Kathy e Behrani não estão presentes. Essa mudança de foco narrativo destoa um pouco do começo do livro, mas não estraga o rumo da história. No filme, o final trágico é atenuado em parte por não mostrar as reais conseqüências para Kathy e Lester, focalizando apenas na tragédia em si. No livro, as conseqüências são mais claras, mostrando as perdas e danos de todos os personagens.

ATENÇÃO: SPOILER (não leia se você ainda não viu o filme ou não leu o livro)

Esta é uma história trágica porque todos os personagens perdem, de algum modo; alguns, a vida; outros, todo o resto. Vemos toda a família Behrani destruída, por causa do caráter controlador de Massoud; ele não admite perder a casa que tornou-se seu único investimento e chance de ascensão social; não admite ter de retornar à condição de trabalhador braçal, ou ter de iniciar uma carreira que não a anterior, na indústria aeronáutica (inviabilizada por seu passado no antigo regime iraniano). Por isso, em um momento de atitude impensada do filho, ele o encoraja a tomar a atitude que, agora sabemos, é a pior possível. Depois da tragédia consumada, ele tenta ‘poupar’ Nadereh do trauma iminente, e tira-lhe a vida por ‘saber’ que ela não o suportaria, e por achar que é seu dever ‘protegê-la’. Por fim, antes de tirar a própria vida, deixa uma carta para a filha, dizendo a ela o que fazer com a casa. Interesante é sua atitude em relação a uma força superior; no momento do desespero, ele diz que vai fazer nazr, que vai entregar a casa a Kathy se a vida do filho for poupada. Quando isto não acontece, ele impede que a casa fique com Kathy, dizendo (em testamento) que a deixa para Soraya, a filha. É uma atitude curiosa, de tentar barganhar com Deus. Até neste momento ele tenta controlar o desenrolar das circunstâncias, como esteve acostumado toda sua vida. Lester, que aproveitou o incidente com Kathy para dar a virada em sua vida que sempre desejou fazer e nunca teve coragem, acaba perdendo a liberdade, Kathy, e a vida em família. Por suas atitudes em pressionar Behrani, mesmo infringindo a lei, ele acaba responsabilizado criminalmente pela tragédia. Mais uma vez vemos o caráter controlador em ação. Ele acha que pode desviar um pouquinho a letra da lei, para cumprir o espírito da mesma (plantar evidências para ‘salvar’ uma mulher vítima de violência doméstica; não prender o menino filipino, por um sentimento paternal e por achar que este era vítima das circunstâncias; pressionar Behrani para ajudar Kathy por acreditar que ela estava sendo fraudada por ele na questão da casa, além do detalhe que a casa seria seu futuro lar com Kathy). Ao fazê-lo, acaba se enredando em uma situação cada vez mais sem saída. Quanto a Kathy, não vemos um caráter controlador, mas uma pessoa que não tem coragem em tomar o controle de seu destino. Ficamos sabendo que ela acabou mergulhada no vício através da companhia de seus dois ex-maridos (e alguns namorados, mas isto é meio vago). Freqüentou o Grupo de Recuperação Racional acompanhando o marido; quando este a abandona, ela mergulha numa apatia e nada faz para mudar sua situação. Tem medo que a família saiba de seu ‘fracasso’ e a culpe por tudo, vício, abandono e, por fim, a perda da casa herdada do pai. Seu medo da responsabilidade por seu destino é tal que ela prefere perder tudo a admitir a culpa, para a família. É interessante a cena final, em que ela decide continuar presa, fingindo ser “muda”, a ter de lutar por sua liberdade (mas culpando Lester por tudo). A viver sem ele, assumindo a responsabilidade por si dali por diante, ela escolhe continuar sem liberdade, sem voz e ‘protegida’ (desta vez pela detenta dominante do grupo que se apieda dela, ao pensar que esta é muda). É a vitória do medo. Ambos, filme e livro, são tocantes, mostrando o desenrolar de um drama trágico, numa espiral crescente de mal-entendidos, ações impensadas e escolhas insensatas. Vemos os personagens tomarem a decisão errada, e nada podemos fazer para mudar seu destino.

Cristine Martin

(texto escrito em 6/9/06)