Rato de Biblioteca



7/11/2007

Sybil

Filed under: Estante de Filmes, Estante de Livros, Filme X Livro — Cristine @ 21:21

SYBIL

Sybil conta a história verídica da paciente psiquiátrica Sybil Isabel Dorsett, que sofria de Transtorno Dissociativo de Identidade (também conhecido como MPD – Multiple Personality Disorder ou Transtorno de Múltiplas Personalidades, e que passou a ser oficialmente chamado de DID - Dissociative Identity Disorder a partir de 1994). Ao longo do tratamento, foram identificadas 16 personalidades de Sybil (incluindo a personalidade atuante, e várias personalidades femininas e masculinas, de diversas idades).

Shirley Ardell Mason

Após a morte de Sybil em 1998, sua verdadeira identidade foi revelada; ela era Shirley Ardell Mason, uma artista e professora de arte; o pseudônimo Sybil foi criado pela escritora Flora Schreiber e pela Dra Cornelia Wilbur para proteger a privacidade da paciente. Muito talentosa, Sybil pintava e desenhava em vários estilos diferentes; na verdade, cada personalidade tinha um estilo artístico próprio.

Sua história foi contada em livro, escrito por Flora Rheta Schreiber e lançado em 1973; a autora foi convidada a escrever o livro pela Dra Wilbur, a psiquiatra de Sybil. Flora e Sybil conviveram por três anos durante o tratamento, e por muitos anos, como amigas, até a morte da escritora, em 1988. O livro foi aprovado pela paciente e pela psiquiatra, e tornou-se um sucesso de vendas logo após o lançamento.

Em 1976, foi lançado um filme contando a história de Sybil, estrelado por Sally Field (Sybil) e Joanne Woodward (que já havia representado uma paciente com múltiplas personalidades em “As Duas Faces de Eva”, de 1957, e aqui representou a psiquiatra, Dra Wilbur). O filme não foi baseado no livro, mas o roteirista (Stewart Stern) teve acesso à documentação psiquiátrica do caso e dramatizou alguns fatos no roteiro (como a criação do personagem Richard, namorado de Sybil, que não existia no livro).

Tammy Blanchard como SybilEm 2007, a HBO lançou uma refilmagem da história, desta vez baseada apenas no livro de Flora Schreiber. O filme é estrelado por Tammy Blanchard (Sybil) e Jessica Lange (Dra. Wilbur; Jessica havia representado outra mulher com problemas psiquiátricos, a atriz Frances Farmer, no filme “Frances”). Esta versão é mais fiel ao livro, embora haja alegações que o livro não seja uma história de um caso psiquiátrico, mas uma narrativa ficcionalizada, exagerada com o fim de chocar, e o filme ainda mais que o livro (veja aqui) . Livro e filmes mostram as torturas e repressões causadas pela mãe esquizofrênica, o pai ausente, o avô fanático religioso e a morte prematura da avó, único ponto de afeto e aceitação na vida da criança, e a conseqüente fragmentação da personalidade da paciente, numa tentativa de suportar os abusos sofridos.

Livro

FishermanAs personalidades de Sybil começaram a “nascer” a partir dos três anos e meio, e foram surgindo durante a infância e adolescência; havia 15 delas, além da personalidade atuante, Sybil, uma mulher exaurida e apagada, cujas emoções ficavam a cargo das outras personalidades. Entre elas, havia Vicky, uma moça francesa e segura de si, que reunia todas as memórias e consciência das personalidades; Peggy Lou, que exprimia a raiva; Peggy Ann, cujo traço principal era o medo; Mike e Sid, dois rapazes (aspectos de Sybil que identificavam-se com o pai e o avô), Nancy Lou, que exprimia a repressão religiosa sofrida por Sybil, e uma loura, que existia desde 1946 mas só revelou-se na fase final da análise, e que representava o lado adolescente de Sybil.

A Sybil atuante sofria lapsos de memória desde a infância, e não se lembrava do que tinha feito ou visto quando alguma das personalidades assumiam o controle de seu corpo; tinha dificuldades com matemática, pois durante dois anos (dos oito aos dez anos) quem esteve no controle foi Peggy Lou, após a morte da avó; Peggy Lou sabia multiplicar, mas Sybil tinha dificuldades com as contas, pois não se lembrava de tê-las aprendido na escola. Sybil sentia-se como se seu tempo tivesse sido roubado.

Em 1945, aos 22 anos, Sybil consultou-se com a Dra Wilbur em Omaha. Após alguns meses o tratamento foi interrompido, quando Sybil esteve doente e sua mãe ligou para avisar a Dra Wilbur que a filha não poderia comparecer às sessões. Quando restabeleceu-se, Sybil ligou para a médica e soube que esta havia se mudado para Nova York. Só pouco antes de morrer, em 1948, a mãe de Sybil lhe contou que nunca chegara a ligar para a Dra Wilbur. Isto reacendeu em Sybil o desejo de continuar o tratamento. De 1948 a 1954 ela esperou até poder mudar-se para Nova York e entrar novamente em contato com a Dra Wilbur.

Blue is the Color of LoveO tratamento prosseguiu por onze anos, e as personalidades foram surgindo durante a análise; o livro descreve, através das memórias destas personalidades, todo o horror da infância de Sybil, com abusos físicos e sexuais e maus tratos por parte da mãe, que foi diagnosticada esquizofrênica, mas nunca recebeu tratamento psiquiátrico; a ausência do pai, que ignorava o que se passava em casa e confiava os cuidados e a educação da menina exclusivamente à mãe; a perda prematura da avó, que a amava (o que causou a atuação de Peggy Lou por dois anos), e do amigo Danny, com quem sentia-se aceita e segura, e que mudou-se para o Texas (o que fez que Vicky assumissse o controle).

“A Dra Wilbur pôde constatar que a maior parte daquilo que Sybil havia sido, muito de sua libido e muitas de suas aquisições e comportamentos, havia sido entregue às outras personalidades que se haviam criado na primeira dissociação. O que apareceu em Sybil foi uma personalidade drenada, cujo medo inicial da mãe se havia ampliado a ponto de incluir não somente figuras maternais, mas todas as pessoas. Exaurida de medo, essa personalidade drenada tinha resolvido nunca mais voltar a assumir o risco de se envolver com seres humanos. Mera personalidade atuante, desprovida de sentimento, era também uma personalidade despojada, porém protegida por poderosas defesas construídas internamente contra as verdadeiras forças que a tinham dividido. Uma vez que não queria voltar do hospital para casa, a criança original não foi, mas enviou duas defensoras internas que seriam suas delegadas para representá-la.”

Brooklin BridgeAo longo dos anos de análise (e com um período de uso de pentotal, logo retirado pelo risco de dependência, e de hipnose) Sybil soube pela Dra Wilbur da existência das diversas personalidades, e passou da recusa à aceitação, e por fim à integração, quando enfim tornou-se a nova Sybil, capaz de sentir e expressar emoções, e com plena consciência e memória de todas as personalidades. Apenas após integrar-se com Peggy Lou e expressar seu ódio pela mãe ela pôde recuperar sua capacidade para a raiva e outras emoções.

” Mas o mais notável de tudo era que, enquanto era devolvida a Sybil a capacidade de irritar-se, desimpediam-se simultaneamente os caminhos para outras emoções. O ato de expresar sua ira contra Hattie Dorsett havia transformado Sybil numa mulher que já não estava desprovida de emoções. Sybil havia começado a distanciar-se do vácuo, dirigindo-se para a unidade.”

Street CornerApós o fim do tratamento, Sybil mudou-se e começou a trabalhar como terapeuta ocupacional em um hospital, e mais tarde como professora de arte. Durante toda a vida esteve em contato e manteve a amizade com Cornelia Wilbur e Flora Schreiber. Em uma carta a Flora, ela comenta: “Veja só! Há quase um ano. É o primeiro ano contínuo de minha vida. É formidável ver como os dias se desdobram em semanas e as semanas em meses, sobre os quais posso relancear os olhos e recordar (…) As pessoas simplesmente encaram tudo como corriqueiro, e acho que perdem o significado real das coisas.”

Controvérsia

O livro e o filme foram muito bem recebidos, e o Transtorno Dissociativo de Identidade, que era relativamente raro antes do caso Sybil, teve um grande aumento no número de casos diagnosticados, especialmente nos anos 80 e 90; nos anos de 1953-54, quando Sybil foi diagnosticada, havia apenas 11 casos documentados de personalidades múltiplas, e nenhum com tantas personalidades como Sybil. O único outro caso documentado de paciente com personalidades múltiplas viva naquela época era “Eve” (cuja história foi contada em As Duas Faces de Eva). Na época da publicação de “Sybil”, em 1973, havia cerca de 75 casos documentados de MPD (Transtorno de Múltiplas Personalidades); nos 25 anos seguintes, foram diagnosticados cerca de 40.000 casos, quase todos nos Estados Unidos; especialistas começaram a duvidar da validade de tais diagnósticos, e culpam o livro por incentivar a indústria de charlatães especializados no tratamento de vítimas de abusos, dos quais o paciente nem mesmo se recorda. Pesquisadores tentam agora analisar o caso que começou tudo isto, e separar o que é realidade do que é ficção.

No final do livro, Flora Schreiber esclarece que “Esta obra é simultaneamente romance e relatório científico: ficção, na medida em que recria as situações e emoções que envolveram a personagem; ensaio, desde que conserva a verdade científica do tratamento”. Para saber até que ponto a verdade científica do tratamento é retratada no livro, seria preciso ter acesso aos arquivos da Dra Wilbur; estes só poderiam ser trazidos a público a partir de 2005, o que ainda não foi feito; o Dr. Herbert Spiegel, psiquiatra que chegou a auxiliar a Dra Wilbur no tratamento de Sybil, afirmou após a morte das três principais envolvidas (paciente, psiquiatra e escritora), que o livro era uma fraude. Por que esperou tanto tempo para fazer tal afirmação?

LaboratoryO Dr Spiegel atuou como psiquiatra substituto durante ausências ocasionais da Dra Wilbur, e em uma destas ocasiões, conta ele, Sybil perguntou se ele queria que ela fosse ‘Helen’. “Um dia eu estava conversando com Sybil sobre um acontecimento e ela me perguntou se eu queria que ela fosse Helen para falar sobre aquilo e eu disse que não era necessário, por quê pergunta, e ela disse bem, quando falo sobre isto com a Dra Wilbur ela quer que eu seja Helen e eu disse a ela se acha que deve ser Helen pode fazê-lo, mas isto não é necessário e então ela pareceu um pouco surpresa e disse bem, se não é preciso eu não o farei e eu disse OK, para mim está bem, então de certo modo ela conseguiu falar sobre aquilo como um acontecimento de sua vida como Sybil. Foi quando eu tive a impressão que ela estava sendo sugestionada pela dra Wilbur para viver certas experiências e as recordasse como sendo de outra pessoa. Quando Sybil estava comigo as outras personalidades não apareciam. Era como um jogo que ela aceitava ao trabalhar com Wilbur, mas brincávamos a respeito quando trabalhávamos juntos.” (link)

O Dr Robert W. Rieber, que trabalhou com o Dr Spiegel, conta que em 1972 recebeu de Flora Schreiber algumas fitas para análise de voz, que ficaram esquecidas por muitos anos. Vinte e cinco anos mais tarde, após a morte das três mulheres, o Dr Spiegel lhe recordou a existência das fitas. Ao ouvi-las, Rieber viu que eram reuniões entre a psiquiatra e a escritora, para discutir o livro. Como deveria ser construído? O que deveria ser estabelecido nas mentes dos leitores? Segundo Rieber, as personalidades não existiam na mente de Sybil – a médica as estava ‘plantando’ sob o efeito da hipnose. Devido ao clima de confiança existente entre as duas, a paciente aceitava estas sugestões com o desejo sincero de ajudar em sua cura.

“Por tudo o que descobri, concluí que as três mulheres – Wilbur, Schreiber e Sybil – foram responsáveis pela construção do mito moderno do distúrbio de múltiplas personalidades. Uma aberração psicológica, tão bizarra e rara que quase não mereceu destaque na maioria dos livros acadêmicos antes de 1973, o distúrbio de múltiplas personalidades recebeu uma repentina respeitabilidade e aceitação. E não era um distúrbio limitado aos Estados Unidos da América. “O MPD está sendo exportado dos Estados Unidos como a Coca Diet e a Gap”, escreveu a crítica social Elaine Sowalter no London Observer.” (link)

Impressions of AspensNo documentário da BBC “Mistaken Identity“, de 1999, o Dr Herbert Spiegel e seu filho, Dr David Spiegel (que ao contrário do pai, trata pacientes de MPD aceitando a existência das outras personalidades e conversando com elas como pessoas independentes da paciente original) foram entrevistados, assim como duas pacientes com MPD. Após a edição, o depoimento das pacientes no documentário confirma a teoria que as outras personalidades surgiram em conseqüência de abusos na infância, e que podem ter sido sugeridas pelos terapeutas. Mais tarde, as pacientes queixaram-se (link) de seu depoimento ter sido cortado e editado, no que poderia ter sido uma boa oportunidade de mostrar como é na verdade a vida de um paciente com MPD; que nem sempre o transtorno está ligado a abusos na infância, mas que pode ser um daqueles mistérios da mente humana que não são completamente compreendidos, e que elas não se vêem como perturbadas, mas encaram a existência das outras personalidades como um estado normal de si mesmas.

Muitas pessoas foram errôneamente diagnosticadas com Transtorno Dissociativo de Identidade, e levadas a crer que haviam sido vítimas de abusos na infância, aceitando “lembranças” que antes não tinham. Em um documentário de 2001 do canal Discovery sobre Personalidades Múltiplas foi mostrado o caso de uma mulher que, após ser “diagnosticada” com múltiplas personalidades por ter sofrido ‘abusos’ e participado de ‘rituais satânicos’, tornou-se extremamente dependente do psiquiatra, afastou-se da família, gastou todo seu dinheiro no tratamento, tornou-se deprimida e, quando o dinheiro acabou e o psiquiatra interrompeu o tratamento, começou a questionar as “lembranças” e aos poucos percebeu que nada daquilo havia realmente acontecido. É claro que há casos em que o diagnóstico é feito corretamente, e como no caso de Sybil, um tratamento analítico pode levar à cura. Mas há muitos charlatães e enganos bem-intencionados que podem causar danos terríveis.

Impressions of FalkirkNo caso de Sybil, a verdadeira Shirley Mason conseguiu levar uma vida normal e tranqüila desde o fim do tratamento, em 1965, até morrer em 1998. Com os rendimentos do livro, ela e a Dra Wilbur mudaram-se para Lexington, Kentucky, onde mantiveram a amizade. Shirley nunca se casou nem teve filhos; ela lecionou arte no Rio Grande College, e tornou-se uma artista de sucesso, dando aulas de pintura em seu ateliê. Quando Cornelia ficou doente, Shirley cuidou dela. Após a morte da médica, em 1992, Shirley tornou-se reclusa. Ela cuidava do jardim, dos gatos e pintava, até que a artrite a impediu de segurar os pincéis. Em 1997, o câncer no seio voltou, após uma remissão de muitos anos. Shirley então tornou-se ainda mais reclusa e morreu em paz, em sua casa, aos 75 anos. Pouco antes, contou a uma amiga que havia chegado a um ponto em que havia perdoado sua mãe. Ela havia se livrado da raiva.

Em recente entrevista sobre a refilmagem de Sybil, a atriz Sally Field comenta sobre o Transtorno Dissociativo de Identidade: ” Todos somos múltiplas personalidades, de certo modo, e acho que ser mentalmente saudável, aprender o que são estas várias personalidades e aceitá-las em nossa vida é o que realmente importa. Acho que o conceito de Carl Jung sobre a sombra – o lado escuro que todos nós temos, as monstruosidades das quais todos somos capazes – é na verdade um tipo de personalidade múltipla. Ela torna-se um problema de saúde mental quando atinge uma intensidade que afasta dramaticamente a pessoa de sua consciência e a impede de integrar a informação em suas mentes”.

Tradução

Apesar do livro ser muito interessante e do texto fluir com facilidade, há nele alguns erros de tradução, como traduzir pretend por pretender, e Brave New World como Bravo Novo Mundo, em uma citação d’A Tempestade, de Shakespeare.

Links relacionados:

Manual da Merck sobre Transtorno Dissociativo de Identidade

Artigo sobre DID na Wikipedia: Inglês / Português

A Arte de Shirley Mason

Astraea’s Web – site sobre Transtorno Dissociativo de Identidade

(Os quadros que ilustram este artigo são de Shirley Ardell Mason)

13/02/2007

Garota, Interrompida

Filed under: Estante de Livros — Cristine @ 14:19

Girl, Interrupted (Garota, Interrompida)

Imaginem uma garota de 18 anos. Rica, boa família, pais inteligentes, bem-sucedidos, muito ocupados. Ela não se interessa pelos estudos, com exceção de literatura e biologia (matéria em que leva bomba duas vezes). Ao se concentrar em alguma tarefa, como os deveres da escola, freqüentemente sua atenção é desviada e começa a esfregar os pulsos na borda da cadeira, mas pára antes de se ferir seriamente. Tem vários namorados, e se encantou com um professor de inglês. Fica muito tempo pensando e imaginando a própria morte e, em uma ocasião, enfileirou 50 aspirinas sobre a mesa, engoliu uma por uma e foi até o supermercado (para ser encontrada?). Desmaiou em frente ao açougue e foi levada ao hospital, onde esvaziaram seu estômago. Diante de uma garota assim, pensamos em terapia (para ela e para os pais, terapia familiar, talvez?), ou em alguma atividade que realmente desperte seu interesse, quem sabe algum trabalho voluntário, ou podemos até achar que a tal garota faz parte de alguma turminha “emo”. Não cremos que seja caso para um hospital psiquiátrico. Mas em 1967, foi. Neste livro de memórias, Susanna Kaysen fala dos quase dois anos que passou internada em um hospital psiquiátrico, de 1967 a 1968. Depois de uma consulta a um psiquiatra que nunca havia visto antes, este (após comentar que ela tinha uma espinha) sugeriu que ela se internasse em um hospital, para “um descanso”. Ela foi posta em um taxi até o Hospital McLean, conhecido por ter “hospedado” famosos e criativos como Sylvia Plath, James Taylor, Ray Charles e Robert Lowell, e não tão famosos cujas famílias pudessem pagar pela estadia. Como Susanna observa, “Nosso hospital era famoso e havia abrigado muitos grandes poetas e cantores. O hospital se especializou em poetas e cantores, ou será que os poetas e cantores se especializaram na loucura?”.

O livro não segue uma estrutura narrativa linear; são capítulos isolados, contando incidentes vividos ou testemunhados por Susannna, que nos mostram o cotidiano das internas, o relacionamento com o pessoal (enfermeiras e médicos) e, no final do livro, um balanço que a autora faz de seu diagnóstico e do que é a doença mental, de como os psicólogos e psiquiatras têm uma abordagem diferente do paciente (segundo ela, os primeiros tratam a mente, e os últimos, o cérebro, interessando-se somente pelas reações químicas que acontecem lá). Por fim, ela conta que conseguiu levar uma vida normal (seja lá o que isto signifique); lendo este livro nos perguntamos o que é normal, e se todos nós não temos problemas e comportamentos que poderiam ser classificados como problemas mentais, e quão fina é a linha que separa a pessoa sã daquela diagnosticada como doente mental. Susanna diz que, na adolescência, só se interessava por literatura e namorados; perguntaram-lhe se ela pretendia viver só disso. No final do livro ela comenta que foi exatamente o que fez, pois tornou-se escritora e continua tendo muitos namorados. Não se encaixar em um modelo predefinido pela sociedade pode ser considerado doença mental?

Ela foi mais tarde diagnosticada como tendo Transtorno de Personalidade Limítrofe (borderline personality disorder). Em sua defesa, ela argumenta que os sintomas da doença são comuns na adolescência (critérios diagnósticos 2, 3, 6 e 7 - ver lista abaixo), e que a doença “é mais freqüentemente diagnosticada em mulheres”, o que interpreta como um preconceito sexista. Promiscuidade, segundo ela, é um conceito diferente, em termos (e números) absolutos e relativos, para homens e para mulheres; compulsão alimentar e de compras seriam sintomas mais tipicamente femininos, enquanto que direção imprudente seria um comportamento masculino (não necessariamente considerado mau). Como a doença nem era conhecida na época, ela sofreu com a falta de um diagnóstico preciso, sem saber na verdade de que sofria. Dois anos após a internação, ela conseguiu ter alta do hospital, e conseguiu levar uma vida normal. Casou, separou, tentou alguns empregos e decidiu ser escritora. Nada diferente da vida de muitas pessoas…

Critérios Diagnósticos Um padrão invasivo de instabilidade dos relacionamentos interpessoais, auto-imagem e afetos e acentuada impulsividade, que começa no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos, como indicado por cinco (ou mais) dos seguintes critérios:

Critérios diagnósticos para F60.31 - 301.83 Transtorno da Personalidade Borderline:

1 -esforços frenéticos para evitar um abandono real ou imaginado. Nota: Não incluir comportamento suicida ou automutilante, coberto no Critério 5[617] 2 - um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização

3 - perturbação da identidade: instabilidade acentuada e resistente da auto-imagem ou do sentimento de self

4 -impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente prejudiciais à própria pessoa (por ex., gastos financeiros, sexo, abuso de substâncias, direção imprudente, comer compulsivamente).

5 - recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de comportamento automutilante

6 - instabilidade afetiva devido a uma acentuada reatividade do humor (por ex., episódios de intensa disforia, irritabilidade ou ansiedade geralmente durando algumas horas e apenas raramente mais de alguns dias)

7 - sentimentos crônicos de vazio

8 - raiva inadequada e intensa ou dificuldade em controlar a raiva (por ex., demonstrações freqüentes de irritação, raiva constante, lutas corporais recorrentes)

9 - ideação paranóide transitória e relacionada ao estresse ou severos sintomas dissociativos(fonte: Wikipédia) http://pt.wikipedia.org/wiki/Transtorno_de_personalidade_lim%C3%ADtrofe

9/02/2007

A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera

Filed under: Estante de Livros — Cristine @ 08:34

Nietzche afirma a idéia do eterno retorno, ou seja, que todos os acontecimentos da vida de cada um, e da história da humanidade, irão repetir-se inúmeras vezes; que tudo o que acontece já aconteceu antes e irá se repetir. Milan Kundera nega esta idéia, dizendo que o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, e que a ausência total de fardo faz com que os movimentos humanos sejam tão livres quanto insignificantes. O que escolher? O peso ou a leveza? Este é o tema central deste romance.

Através da história de dois casais, Tomas e Tereza, e Franz e Sabina, ele mostra que todas as nossas ações não têm sentido, exatamente porque nossas ações não se repetem, e nossa vida não acontece senão uma vez. Isso confere leveza à nossa existência; nossos atos são leves porque suas conseqüências não importam; são insignificantes.

Tomas e Tereza são impelidos um ao outro por uma série de acasos, e estão condenados a viver juntos, embora causando um ao outro grande dor. Eles acreditam que estas coincidências são uma marca do destino; Tomas lembra uma frase de um quarteto de Beethoven que diz: “Muss es sein? Es muss sein! Es muss sein!” (Tem de ser assim? Tem de ser! Tem de ser!) Ele considerava que seu amor por Tereza era um es muss sein em sua vida, uma força que o impelia, o destino. Este es muss sein também o impele à profissão médica, às mulheres, e a abandonar sua profissão quando se recusa a se retratar por um artigo escrito por ele, e que é considerado subversivo pelas autoridades comunistas (estamos em Praga, após a invasão russa de 1968).

Tereza deseja libertar-se da invasão de sua privacidade simbolizada pela mãe, pelas limitações de sua vida, e encontra em Tomas os sinais do acaso ou destino: Beethoven, números coincidentes, livros. Ela acredita que somente o acaso tem voz; o que acontece todos os dias, e se repete, não é senão uma coisa muda. Os sinais que a ligaram a Tomas significavam para ela um outro mundo ao qual desejava pertencer, para escapar de sua vida sem sentido.

Sabina, pintora tcheca e uma das inúmeras amantes de Tomas, também deseja fugir das limitações de sua vida, e encontra na traição o meio de se libertar. Somente traindo ela pode, ao negar, escolher um outro caminho. “Trair é sair da ordem. Trair é sair da ordem e partir para o desconhecido. Sabina não conhece nada mais belo que partir para o desconhecido”.

Franz é um idealista; acredita que uma Grande Marcha da história irá levar a humanidade para a frente. Franz achava sua vida irreal, e desejava a vida “real” das revoluções, marchas e desfiles. Sabina representa, para ele, o ideal, simbolizado pela resistência de seu país ao domínio russo; conseqüentemente, representa seu ideal feminino; quando ela o abandona, ele toma coragem para mudar sua vida, mas tudo que faz é para os olhos de Sabina. Kundera mostra a futilidade dessas ações idealistas, especialmente no capítulo A Grande Marcha, onde vemos Franz em uma passeata na fronteira do Camboja, onde as ações idealistas não significam nada, pois são apenas palco para a vaidade humana, e não alteram o curso dos acontecimentos.

Todas essas vidas, unidas por acasos, simbolismos, e palavras incompreendidas, têm uma insustentável leveza, pois seja qual for a decisão que tomemos, só se tem uma vida e não se pode compará-la com as vidas anteriores nem corrigir uma decisão errada em outra vida; tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação, e como diz um provérbio alemão citado por Tomas, Einmal ist keinmal, ou seja, uma vez não conta, uma vez é nunca. Negando Nietzche, ele afirma que a vida não tem sentido, pois “não poder viver senão uma vida é como não viver nunca”.

Este é um romance sobre relacionamentos, mas que levanta questões filosóficas: será que a vida tem sentido? Ou será o niilismo defendido por Kundera a solução? Analisando o comportamento de seus personagens, ele levanta tais questões e deixa ao leitor a decisão final; afinal, ele mesmo defende que, qualquer que seja esta decisão, terá a leveza insustentável do ser.


Cristine Martin

(texto escrito em 18/04/06)