Rato de Biblioteca



22/01/2008

Mar Adentro

Filed under: Estante de Filmes — Cristine @ 16:03

“…el derecho de nacer parte de una verdad: el deseo de placer. El derecho de morir parte de otra verdad: el deseo de no sufrir. La razón ética pone el bien o el mal en cada uno de los actos. Un hijo concebido contra la voluntad de la mujer es un crimen. Una muerte contra la voluntad de la persona también. Pero un hijo deseado y concebido por amor es, obviamente, un bien. Una muerte deseada para liberarse de un dolor irremediable, también. Ninguna libertad puede estar construida sobre una tiranía. Ninguna justicia, sobre injusticia o dolor. Ningún bien positivo, sobre un sufrimiento injusto…”

Ramón Sampedro

Este filme escrito, produzido e dirigido por Alejandro Amenábar, conta a história verídica de Ramón Sampedro. Ramón, nascido em 1943, trabalhava como mecânico de navios e após um acidente de mergulho no litoral da Galícia ficou tetraplégico, aos 25 anos. Pelos 29 anos seguintes ele lutou por seu direito à eutanásia ativa.

Alejandro AmenábarMar Adentro ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2004, e diversos outros prêmios, como o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e indicação para Melhor Ator (Javier Bardem). Ganhou também 14 prêmios Goya (na Espanha), além dos prêmios Donatello (na Itália) e do Festival de Veneza.

Javier Bardem e Belén RuedaNo início do filme, Ramón (Javier Bardem) está há 26 anos preso à cama e decidido a morrer, pois acha que uma vida em sua condição física não é uma vida digna. Ele diz que viver é um direito, e não uma obrigação, como no seu caso. Sua família, que cuida dele com carinho, não concorda com sua decisão; alguns amigos o apóiam, respeitam sua decisão e tentam ajudá-lo em sua batalha judicial. Entre eles está Julia (Belén Rueda), uma advogada que sofre de uma doença degenerativa (Cadasil) e por identificar-se com a incapacidade física de Ramón, decide ajudá-lo.

Conforme Júlia vai conversando com Ramón e a família para preparar o caso, ficamos sabendo que Ramón era um jovem ativo, que deu a volta ao mundo trabalhando como mecânico de navios, tinha uma noiva, com quem rompeu após o acidente por acreditar-se despreparado para o amor. Em uma linda cena ao som de ‘Nessun Dorma’, Ramón desce da cama, corre para a janela e voa até a praia para encontrar-se com Júlia (“soube que você estava aqui, e vim voando”); esses devaneios eram o refúgio interior de Ramón, seu ‘mar adentro’, onde ele podia ser livre; ele diz que ‘o mar me deu a vida, e o mar a tirou’.

Lola Dueños e Javier BardemOutra amiga é Rosa (Lola Dueños), uma operária, mãe de dois filhos e divorciada; ela começa a visitá-lo depois de assistir a uma reportagem na TV; na primeira visita Ramón acusa-a de ser uma mulher frustrada e estar tentando compensar isso com as visitas; ela vai embora, mas aos poucos a amizade vai crescendo, assim como a dedicação e interesse de Rosa por Ramón.

Ao longo dos dois anos mostrados no filme, Ramón vê seu pedido de autorização de eutanásia negado pela justiça espanhola, e decide levar a cabo sua decisão mesmo assim, contando com a ajuda dos amigos. Após mais um ataque cardíaco, Julia percebe que sua condição física está se deteriorando e decide que irá ajudá-lo a morrer, suicidando-se em seguida. Ela diz que voltará assim que o livro de Ramón for publicado, mas junto com o livro envia uma carta, na qual presume-se que comunica que mudou de idéia, e escolheu viver. O filme não mostra o conteúdo da carta, mas vemos o desespero de Ramón depois disso.

Rosa, que tenta despertar o desejo de viver em Ramón, por fim decide ajudá-lo a morrer. Ramón diz que quem o amasse de verdade respeitaria seu desejo de morrer e o ajudaria a fazê-lo. Ele então despede-se da família e vai ao encontro de Rosa.

Em uma das cenas mais comoventes do filme, Ramón diz adeus à família, e pede um abraço ao sobrinho (Javi); ele o abraça, e diz que ‘entendeu a poesia’ (um poema escrito por Ramón ao filho que nunca teria, e dedicada a Javier). A cunhada Manuela chora, e o irmão (que nunca aceitou a decisão do irmão mais novo) fica calado, longe de todos. Quando a ambulância parte, Javier sai correndo atrás dela.

Ramón SampedroPara que ninguém pudesse ser responsabilizado pela eutanásia, várias pessoas o ajudaram, conseguindo o cianureto de potássio, transportando-o, medindo a dose, deixando o copo ao seu alcance e, por fim, gravando em vídeo seus últimos momentos. Vemos no filme as últimas palavras de Ramón (em espanhol e em inglês), que antes de ingerir a dose mortal, em 12 de janeiro de 1998, explica que seus amigos apenas lhe emprestaram seus braços e pernas, mas a decisão e consciência foram dele.

Após o suicídio de Ramón, Ramóna Manero (a amiga retratada no personagem Rosa) foi acusada de tê-lo ajudado, mas o caso foi arquivado por falta de provas. Mais tarde, quando a acusação foi retirada, ela contou publicamente que foi uma das pessoas que ajudaram Ramón.

O filme não é uma apologia da eutanásia; o próprio Ramón não queria impor suas crenças a ninguém, apenas queria exercer seu direito de propriedade sobre seu corpo, e dele dispor se assim o desejasse. Ele sentia que havia se tornado um fardo para sua família, que sempre lhe deu todo o amor e carinho.

A eutanásia é um assunto, como o aborto, em que nossa opinião e convicções podem mudar no momento em que estivermos diretamente envolvidos. Até que ponto vai nossa tolerância pessoal à dor e ao sofrimento? Esperamos que nunca o precisemos provar; quando temos de tomar uma decisão quanto à vida de um animal de estimação sem esperanças de cura, sentimos o peso de tal decisão, a dor antecipada da perda e um vazio no peito. Somente podemos imaginar uma situação em que o doente terminal seja uma pessoa querida ou nós mesmos. Somente podemos imaginar o tamanho do vazio e a intensidade da dor.

No filme, o pai de Ramón diz que “só há algo pior que a morte de um filho; é ter um filho que quer morrer“. No artigo de Arnoldo Kraus, ele diz que “as palavras do pai de Ramón Sampedro “hay algo todavía peor que la muerte de un hijo: tener un hijo que quiere morirse”, congelam o ar e retorcem a alma. Para Ramón, tetraplégico por quase 30 anos, o tempo parou: “A vida é um direito, não uma obrigação”. Como lidar com a paternidade que não consegue entender que um filho deseje morrer, dadas as circunstâncias, e a sensação de um ser humano que sente que viver sem um corpo não faz sentido? Enquanto o primeiro se agarra à vida e afirma que é preciso vivê-la até o último suspiro, o último sente que não parou de morrer desde o dia em que perdeu seu corpo. Vida como obrigação ou vida como direito?”

cartaz do filmeEste filme nos faz pensar sobre a vida, o direito à vida e à morte, e principalmente o respeito às crenças e convicções, sem convertermo-nos em juízes dos motivos e razões do outro. Ramón não queria convencer ninguém; apenas exercer seu direito.

No artigo de Carlos Brazil, “Eutanásia em Discussão“, o professor de Bioética da Faculdade de Odontologia da USP (Universidade de São Paulo) Dalton Luiz de Paula Ramos analisa: “Obviamente uma pessoa que está vivendo em sofrimento, em um certo sentido se justifica que ela peça a morte. Dá para a gente entender. Por que ela está pedindo a morte? Porque está sofrendo. Agora, o sofrimento tem várias dimensões. Eu caracterizaria pelo menos duas delas: uma é o sofrimento físico - estar sentindo dor ou coisas que o valham - e a questão da dor física é médica e vai encontrar na Medicina respostas para muitas dessas condições, senão para todas; mas sabemos que a questão do sofrimento não se reduz só à dor física, porque o grande sofrimento pode existir por uma total perda de sentido do significado da vida. Existe aí um componente psicológico e também um componente espiritual. E, da mesma forma que a dor física pode ser tratada pelos recursos analgésicos da Medicina, essa outra dimensão da dor pode ser tratada. Não estou dizendo que é fácil, mas que ela pode ser tratada”.

cartaz do filmeRamón Sampedro não era um doente terminal; mas para ele, a vida havia perdido todo o sentido e significado. Ele tinha uma família que o amava, amigos, mas depois do acidente seu único objetivo era a morte. Apesar de sua firme decisão, a justiça negou a ele o direito de dispor de sua vida. Uma pessoa que falha na tentativa de suicídio não é punida pela lei; mas a partir do momento em que qualquer pessoa corre risco de vida, esse direito lhe é negado, e a decisão passa do âmbito particular para o legal.

No mesmo artigo, a professora de Antropologia da UnB (Universidade de Brasília) Débora Diniz avalia que o direito individual de deliberação sobre a morte deve pertencer especificamente a cada pessoa: “A nossa concepção pública de Justiça está contaminada por concepções privadas de bem. Essa é uma fragilidade da nossa concepção de razão pública. Nós precisamos seriamente enfrentar o reconhecimento de que uma razão pública expressa na Constituição e nas nossas leis não pode deliberar sobre concepções de bem. E resquícios como estes de reconhecer que a eutanásia é um atentado contra uma santidade da vida ou contra um princípio de dignidade da vida e não reconhecer como única instância possível uma deliberação individual é um pressuposto de heteronomia do nosso processo decisório que está assentado em premissas particulares de concepção de bem que não são compartilhadas por todos nós”.

Uma lei que legitime a prática da eutanásia não obrigaria ninguém a praticá-la, assim como a descriminalização do aborto não obrigaria ninguém a abortar. Tais decisões devem pertencer especificamente a cada pessoa. Contudo, é necessário identificar quando a decisão é pessoal, e quando ela é movida por outros interesses (custos de UTI e de tratamentos médicos prolongados, interesses financeiros, etc.). O artigo compara os casos de Ramón, do Papa João Paulo II, do governador Mário Covas e de Terry Schiavo. Para o jurista Ives Gandra Martins, o caso de Terry foi um crime, pois a família (especificamente o marido; os pais dela eram contra) decidiu retirar a sonda que a alimentava e ela permaneceu treze dias sem comida ou bebida, até morrer (de fome). A professora Débora afirma que a morte de Ramón foi mais digna que a de Terry ou do Papa, mas para a sensibilidade moral pública, estas últimas são muito mais aceitas.

Longe de propor respostas para um tema tão complexo, este belíssimo filme nos faz pensar sobre o assunto, analisar nossas próprias opiniões, principalmente, sobre os limites da vida e o significado da dignidade. Sem julgar.

Mar Adentro

Ramón Sampedro
Mar adentro, mar adentro,

y em la ingravidez del fondo

donde se cumplen los sueños,

se juntan dos voluntades

para cumplir um deseo.

Um beso enciende la vida

com um relámpago y um trueno,

y em uma metamorfosis

mi cuerpo no es ya mi cuerpo;

es como penetrar al centro

del universo:

El abrazo más pueril,

y el más puro de los besos,

hasta vernos reducidos

en um único deseo:

Tu mirada y mi mirada

como un eco repitiendo,

sin palabras:

más adentro, más adentro,

hasta el más allá del todo

por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre

y siempre quiero estar muerto

para seguir com mi boca

enredada em tus cabellos.

Para saber mais:

Trailer do filme no You Tube

Vídeo no You Tube sobre o filme, com informações sobre a produção

Artigo “Eutanásia: dono da vida, o ser humano é também dono da sua própria morte?” (Luiz Flavio Gomes)

Tipos de Eutanásia

Suicídio Assistido

Caso Ramón Sampedro – Suicídio assistido

Artigo “Eutanásia em Discussão” (Carlos Brazil)

Artigo “Live and Let Die” (Rod Usher, amigo de Ramón)

7/11/2007

Sybil

Filed under: Estante de Filmes, Estante de Livros, Filme X Livro — Cristine @ 21:21

SYBIL

Sybil conta a história verídica da paciente psiquiátrica Sybil Isabel Dorsett, que sofria de Transtorno Dissociativo de Identidade (também conhecido como MPD – Multiple Personality Disorder ou Transtorno de Múltiplas Personalidades, e que passou a ser oficialmente chamado de DID - Dissociative Identity Disorder a partir de 1994). Ao longo do tratamento, foram identificadas 16 personalidades de Sybil (incluindo a personalidade atuante, e várias personalidades femininas e masculinas, de diversas idades).

Shirley Ardell Mason

Após a morte de Sybil em 1998, sua verdadeira identidade foi revelada; ela era Shirley Ardell Mason, uma artista e professora de arte; o pseudônimo Sybil foi criado pela escritora Flora Schreiber e pela Dra Cornelia Wilbur para proteger a privacidade da paciente. Muito talentosa, Sybil pintava e desenhava em vários estilos diferentes; na verdade, cada personalidade tinha um estilo artístico próprio.

Sua história foi contada em livro, escrito por Flora Rheta Schreiber e lançado em 1973; a autora foi convidada a escrever o livro pela Dra Wilbur, a psiquiatra de Sybil. Flora e Sybil conviveram por três anos durante o tratamento, e por muitos anos, como amigas, até a morte da escritora, em 1988. O livro foi aprovado pela paciente e pela psiquiatra, e tornou-se um sucesso de vendas logo após o lançamento.

Em 1976, foi lançado um filme contando a história de Sybil, estrelado por Sally Field (Sybil) e Joanne Woodward (que já havia representado uma paciente com múltiplas personalidades em “As Duas Faces de Eva”, de 1957, e aqui representou a psiquiatra, Dra Wilbur). O filme não foi baseado no livro, mas o roteirista (Stewart Stern) teve acesso à documentação psiquiátrica do caso e dramatizou alguns fatos no roteiro (como a criação do personagem Richard, namorado de Sybil, que não existia no livro).

Tammy Blanchard como SybilEm 2007, a HBO lançou uma refilmagem da história, desta vez baseada apenas no livro de Flora Schreiber. O filme é estrelado por Tammy Blanchard (Sybil) e Jessica Lange (Dra. Wilbur; Jessica havia representado outra mulher com problemas psiquiátricos, a atriz Frances Farmer, no filme “Frances”). Esta versão é mais fiel ao livro, embora haja alegações que o livro não seja uma história de um caso psiquiátrico, mas uma narrativa ficcionalizada, exagerada com o fim de chocar, e o filme ainda mais que o livro (veja aqui) . Livro e filmes mostram as torturas e repressões causadas pela mãe esquizofrênica, o pai ausente, o avô fanático religioso e a morte prematura da avó, único ponto de afeto e aceitação na vida da criança, e a conseqüente fragmentação da personalidade da paciente, numa tentativa de suportar os abusos sofridos.

Livro

FishermanAs personalidades de Sybil começaram a “nascer” a partir dos três anos e meio, e foram surgindo durante a infância e adolescência; havia 15 delas, além da personalidade atuante, Sybil, uma mulher exaurida e apagada, cujas emoções ficavam a cargo das outras personalidades. Entre elas, havia Vicky, uma moça francesa e segura de si, que reunia todas as memórias e consciência das personalidades; Peggy Lou, que exprimia a raiva; Peggy Ann, cujo traço principal era o medo; Mike e Sid, dois rapazes (aspectos de Sybil que identificavam-se com o pai e o avô), Nancy Lou, que exprimia a repressão religiosa sofrida por Sybil, e uma loura, que existia desde 1946 mas só revelou-se na fase final da análise, e que representava o lado adolescente de Sybil.

A Sybil atuante sofria lapsos de memória desde a infância, e não se lembrava do que tinha feito ou visto quando alguma das personalidades assumiam o controle de seu corpo; tinha dificuldades com matemática, pois durante dois anos (dos oito aos dez anos) quem esteve no controle foi Peggy Lou, após a morte da avó; Peggy Lou sabia multiplicar, mas Sybil tinha dificuldades com as contas, pois não se lembrava de tê-las aprendido na escola. Sybil sentia-se como se seu tempo tivesse sido roubado.

Em 1945, aos 22 anos, Sybil consultou-se com a Dra Wilbur em Omaha. Após alguns meses o tratamento foi interrompido, quando Sybil esteve doente e sua mãe ligou para avisar a Dra Wilbur que a filha não poderia comparecer às sessões. Quando restabeleceu-se, Sybil ligou para a médica e soube que esta havia se mudado para Nova York. Só pouco antes de morrer, em 1948, a mãe de Sybil lhe contou que nunca chegara a ligar para a Dra Wilbur. Isto reacendeu em Sybil o desejo de continuar o tratamento. De 1948 a 1954 ela esperou até poder mudar-se para Nova York e entrar novamente em contato com a Dra Wilbur.

Blue is the Color of LoveO tratamento prosseguiu por onze anos, e as personalidades foram surgindo durante a análise; o livro descreve, através das memórias destas personalidades, todo o horror da infância de Sybil, com abusos físicos e sexuais e maus tratos por parte da mãe, que foi diagnosticada esquizofrênica, mas nunca recebeu tratamento psiquiátrico; a ausência do pai, que ignorava o que se passava em casa e confiava os cuidados e a educação da menina exclusivamente à mãe; a perda prematura da avó, que a amava (o que causou a atuação de Peggy Lou por dois anos), e do amigo Danny, com quem sentia-se aceita e segura, e que mudou-se para o Texas (o que fez que Vicky assumissse o controle).

“A Dra Wilbur pôde constatar que a maior parte daquilo que Sybil havia sido, muito de sua libido e muitas de suas aquisições e comportamentos, havia sido entregue às outras personalidades que se haviam criado na primeira dissociação. O que apareceu em Sybil foi uma personalidade drenada, cujo medo inicial da mãe se havia ampliado a ponto de incluir não somente figuras maternais, mas todas as pessoas. Exaurida de medo, essa personalidade drenada tinha resolvido nunca mais voltar a assumir o risco de se envolver com seres humanos. Mera personalidade atuante, desprovida de sentimento, era também uma personalidade despojada, porém protegida por poderosas defesas construídas internamente contra as verdadeiras forças que a tinham dividido. Uma vez que não queria voltar do hospital para casa, a criança original não foi, mas enviou duas defensoras internas que seriam suas delegadas para representá-la.”

Brooklin BridgeAo longo dos anos de análise (e com um período de uso de pentotal, logo retirado pelo risco de dependência, e de hipnose) Sybil soube pela Dra Wilbur da existência das diversas personalidades, e passou da recusa à aceitação, e por fim à integração, quando enfim tornou-se a nova Sybil, capaz de sentir e expressar emoções, e com plena consciência e memória de todas as personalidades. Apenas após integrar-se com Peggy Lou e expressar seu ódio pela mãe ela pôde recuperar sua capacidade para a raiva e outras emoções.

” Mas o mais notável de tudo era que, enquanto era devolvida a Sybil a capacidade de irritar-se, desimpediam-se simultaneamente os caminhos para outras emoções. O ato de expresar sua ira contra Hattie Dorsett havia transformado Sybil numa mulher que já não estava desprovida de emoções. Sybil havia começado a distanciar-se do vácuo, dirigindo-se para a unidade.”

Street CornerApós o fim do tratamento, Sybil mudou-se e começou a trabalhar como terapeuta ocupacional em um hospital, e mais tarde como professora de arte. Durante toda a vida esteve em contato e manteve a amizade com Cornelia Wilbur e Flora Schreiber. Em uma carta a Flora, ela comenta: “Veja só! Há quase um ano. É o primeiro ano contínuo de minha vida. É formidável ver como os dias se desdobram em semanas e as semanas em meses, sobre os quais posso relancear os olhos e recordar (…) As pessoas simplesmente encaram tudo como corriqueiro, e acho que perdem o significado real das coisas.”

Controvérsia

O livro e o filme foram muito bem recebidos, e o Transtorno Dissociativo de Identidade, que era relativamente raro antes do caso Sybil, teve um grande aumento no número de casos diagnosticados, especialmente nos anos 80 e 90; nos anos de 1953-54, quando Sybil foi diagnosticada, havia apenas 11 casos documentados de personalidades múltiplas, e nenhum com tantas personalidades como Sybil. O único outro caso documentado de paciente com personalidades múltiplas viva naquela época era “Eve” (cuja história foi contada em As Duas Faces de Eva). Na época da publicação de “Sybil”, em 1973, havia cerca de 75 casos documentados de MPD (Transtorno de Múltiplas Personalidades); nos 25 anos seguintes, foram diagnosticados cerca de 40.000 casos, quase todos nos Estados Unidos; especialistas começaram a duvidar da validade de tais diagnósticos, e culpam o livro por incentivar a indústria de charlatães especializados no tratamento de vítimas de abusos, dos quais o paciente nem mesmo se recorda. Pesquisadores tentam agora analisar o caso que começou tudo isto, e separar o que é realidade do que é ficção.

No final do livro, Flora Schreiber esclarece que “Esta obra é simultaneamente romance e relatório científico: ficção, na medida em que recria as situações e emoções que envolveram a personagem; ensaio, desde que conserva a verdade científica do tratamento”. Para saber até que ponto a verdade científica do tratamento é retratada no livro, seria preciso ter acesso aos arquivos da Dra Wilbur; estes só poderiam ser trazidos a público a partir de 2005, o que ainda não foi feito; o Dr. Herbert Spiegel, psiquiatra que chegou a auxiliar a Dra Wilbur no tratamento de Sybil, afirmou após a morte das três principais envolvidas (paciente, psiquiatra e escritora), que o livro era uma fraude. Por que esperou tanto tempo para fazer tal afirmação?

LaboratoryO Dr Spiegel atuou como psiquiatra substituto durante ausências ocasionais da Dra Wilbur, e em uma destas ocasiões, conta ele, Sybil perguntou se ele queria que ela fosse ‘Helen’. “Um dia eu estava conversando com Sybil sobre um acontecimento e ela me perguntou se eu queria que ela fosse Helen para falar sobre aquilo e eu disse que não era necessário, por quê pergunta, e ela disse bem, quando falo sobre isto com a Dra Wilbur ela quer que eu seja Helen e eu disse a ela se acha que deve ser Helen pode fazê-lo, mas isto não é necessário e então ela pareceu um pouco surpresa e disse bem, se não é preciso eu não o farei e eu disse OK, para mim está bem, então de certo modo ela conseguiu falar sobre aquilo como um acontecimento de sua vida como Sybil. Foi quando eu tive a impressão que ela estava sendo sugestionada pela dra Wilbur para viver certas experiências e as recordasse como sendo de outra pessoa. Quando Sybil estava comigo as outras personalidades não apareciam. Era como um jogo que ela aceitava ao trabalhar com Wilbur, mas brincávamos a respeito quando trabalhávamos juntos.” (link)

O Dr Robert W. Rieber, que trabalhou com o Dr Spiegel, conta que em 1972 recebeu de Flora Schreiber algumas fitas para análise de voz, que ficaram esquecidas por muitos anos. Vinte e cinco anos mais tarde, após a morte das três mulheres, o Dr Spiegel lhe recordou a existência das fitas. Ao ouvi-las, Rieber viu que eram reuniões entre a psiquiatra e a escritora, para discutir o livro. Como deveria ser construído? O que deveria ser estabelecido nas mentes dos leitores? Segundo Rieber, as personalidades não existiam na mente de Sybil – a médica as estava ‘plantando’ sob o efeito da hipnose. Devido ao clima de confiança existente entre as duas, a paciente aceitava estas sugestões com o desejo sincero de ajudar em sua cura.

“Por tudo o que descobri, concluí que as três mulheres – Wilbur, Schreiber e Sybil – foram responsáveis pela construção do mito moderno do distúrbio de múltiplas personalidades. Uma aberração psicológica, tão bizarra e rara que quase não mereceu destaque na maioria dos livros acadêmicos antes de 1973, o distúrbio de múltiplas personalidades recebeu uma repentina respeitabilidade e aceitação. E não era um distúrbio limitado aos Estados Unidos da América. “O MPD está sendo exportado dos Estados Unidos como a Coca Diet e a Gap”, escreveu a crítica social Elaine Sowalter no London Observer.” (link)

Impressions of AspensNo documentário da BBC “Mistaken Identity“, de 1999, o Dr Herbert Spiegel e seu filho, Dr David Spiegel (que ao contrário do pai, trata pacientes de MPD aceitando a existência das outras personalidades e conversando com elas como pessoas independentes da paciente original) foram entrevistados, assim como duas pacientes com MPD. Após a edição, o depoimento das pacientes no documentário confirma a teoria que as outras personalidades surgiram em conseqüência de abusos na infância, e que podem ter sido sugeridas pelos terapeutas. Mais tarde, as pacientes queixaram-se (link) de seu depoimento ter sido cortado e editado, no que poderia ter sido uma boa oportunidade de mostrar como é na verdade a vida de um paciente com MPD; que nem sempre o transtorno está ligado a abusos na infância, mas que pode ser um daqueles mistérios da mente humana que não são completamente compreendidos, e que elas não se vêem como perturbadas, mas encaram a existência das outras personalidades como um estado normal de si mesmas.

Muitas pessoas foram errôneamente diagnosticadas com Transtorno Dissociativo de Identidade, e levadas a crer que haviam sido vítimas de abusos na infância, aceitando “lembranças” que antes não tinham. Em um documentário de 2001 do canal Discovery sobre Personalidades Múltiplas foi mostrado o caso de uma mulher que, após ser “diagnosticada” com múltiplas personalidades por ter sofrido ‘abusos’ e participado de ‘rituais satânicos’, tornou-se extremamente dependente do psiquiatra, afastou-se da família, gastou todo seu dinheiro no tratamento, tornou-se deprimida e, quando o dinheiro acabou e o psiquiatra interrompeu o tratamento, começou a questionar as “lembranças” e aos poucos percebeu que nada daquilo havia realmente acontecido. É claro que há casos em que o diagnóstico é feito corretamente, e como no caso de Sybil, um tratamento analítico pode levar à cura. Mas há muitos charlatães e enganos bem-intencionados que podem causar danos terríveis.

Impressions of FalkirkNo caso de Sybil, a verdadeira Shirley Mason conseguiu levar uma vida normal e tranqüila desde o fim do tratamento, em 1965, até morrer em 1998. Com os rendimentos do livro, ela e a Dra Wilbur mudaram-se para Lexington, Kentucky, onde mantiveram a amizade. Shirley nunca se casou nem teve filhos; ela lecionou arte no Rio Grande College, e tornou-se uma artista de sucesso, dando aulas de pintura em seu ateliê. Quando Cornelia ficou doente, Shirley cuidou dela. Após a morte da médica, em 1992, Shirley tornou-se reclusa. Ela cuidava do jardim, dos gatos e pintava, até que a artrite a impediu de segurar os pincéis. Em 1997, o câncer no seio voltou, após uma remissão de muitos anos. Shirley então tornou-se ainda mais reclusa e morreu em paz, em sua casa, aos 75 anos. Pouco antes, contou a uma amiga que havia chegado a um ponto em que havia perdoado sua mãe. Ela havia se livrado da raiva.

Em recente entrevista sobre a refilmagem de Sybil, a atriz Sally Field comenta sobre o Transtorno Dissociativo de Identidade: ” Todos somos múltiplas personalidades, de certo modo, e acho que ser mentalmente saudável, aprender o que são estas várias personalidades e aceitá-las em nossa vida é o que realmente importa. Acho que o conceito de Carl Jung sobre a sombra – o lado escuro que todos nós temos, as monstruosidades das quais todos somos capazes – é na verdade um tipo de personalidade múltipla. Ela torna-se um problema de saúde mental quando atinge uma intensidade que afasta dramaticamente a pessoa de sua consciência e a impede de integrar a informação em suas mentes”.

Tradução

Apesar do livro ser muito interessante e do texto fluir com facilidade, há nele alguns erros de tradução, como traduzir pretend por pretender, e Brave New World como Bravo Novo Mundo, em uma citação d’A Tempestade, de Shakespeare.

Links relacionados:

Manual da Merck sobre Transtorno Dissociativo de Identidade

Artigo sobre DID na Wikipedia: Inglês / Português

A Arte de Shirley Mason

Astraea’s Web – site sobre Transtorno Dissociativo de Identidade

(Os quadros que ilustram este artigo são de Shirley Ardell Mason)

10/02/2007

Super Size Me

Filed under: Estante de Filmes — Cristine @ 20:35

Após a vitória do Oscar de melhor documentário por Bowling for Columbine (Tiros em Columbine), de Michael Moore, os documentários, que até há algum tempo eram aqueles filmes sem-graça que davam sono, passaram a ser filmes comercialmente viáveis, com produção caprichada e roteiro idem, que atraem pessoas ao cinema (coisa inimaginável tempos atrás), e estão ficando cada vez melhores. É o caso deste documentário, Super Size Me (subtítulo em português - a Dieta do Palhaço). O produtor/diretor/cobaia (conforme ele se anuncia em seu site) Morgan Spurlock resolveu realizar o filme após ver uma notícia sobre duas adolescentes obesas que estavam processando a rede de fast-food McDonald´s. Roteirista de sucesso, ele trabalhou em vídeo-clipes, comerciais e shows de TV. Este foi seu primeiro filme de longa-metragem.

O filme começa mostrando fatos e dados sobre o crescente aumento da obesidade na América. 37% das crianças e adolescentes americanos são obesos, e 2 em cada 3 adultos estão acima do peso ou obesos.A Organização Mundial da Saúde declarou a obesidade como uma “epidemia global”. Se nada for feito, a obesidade irá superar o fumo como a maior causa evitável de morte da América. De quem é a culpa: da pessoas que não conseguem se controlar, ou das corporações de fast-food? Ele então anuncia sua decisão de passar um mês se alimentando exclusivamente de produtos vendidos em lojas doMcDonald´s. Ele determinou para si mesmo algumas regras:

  1. Sem opções: ele só poderia consumir o que viesse das lojas (incluindo a água);
  2. Só consumir as porções super size quando fossem oferecidas (e ele não as poderia recusar);
  3. Sem desculpas: ele deveria comer cada item do cardápio ao menos uma vez.

Antes de começar a maratona, ele visitou três médicos (um cardiologista, um gastro enterologista e um clínico geral) e uma nutricionista,que o monitorariam periodicamente durante o mês da experiência, e fez um check-up completo. Seu peso era normal, sua saúde boa, e todos os profissionais concordaram que a idéia era uma estupidez completa.

Durante o mês da “experiência”, ele visitou 20 cidades americanas (ou pelo menos seus McDonald´s), incluindo Houston, a “Cidade mais Gorda” da América. Das 9 vezes que as porções super size foram oferecidas, 5 foram no estado do Texas (e a primeira ele não agüentou comer inteira, depois de meia hora tentando acabar com o lanche, ele “devolveu” tudo). O estilo de vida americano, incluindo a dificuldade de se fazer as refeições em casa, fazem que 40% das refeições dos americanos sejam feitas fora de casa (1 em cada 4 americanos visitam um restaurante fast-food por dia. O McDonald’s representa 43% deste mercado). Vemos lojas McDonald´s até em um hospital (segundo Morgan, fica mais fácil conseguir auxílio médico quando sua saúde se estragar por causa da comida).

Além de acompanhar a “dieta” de Morgan (de 5000 kcal por dia, o dobro do recomendado para um adulto médio), somos apresentados a alguns programas de merenda, alguns deles caros e cheios de itens não nutritivos, e um programa implantado em uma escola de Michigan, com o apoio dos pais dos alunos, que oferece apenas refeições nutritivas (e por um preço mais baixo que os programas tipo fast-food). Além do mais, este programa de merenda é acompanhado de um incentivo à atividade física, o que normalmente não acontece nas escolas americanas.

O documentário mostra como a comida fast-food pode viciar, como uma droga (O McDonald´s chama as pessoas que consomem muito de seus alimentos de “Usuários Pesados”); mostra os muitos problemas sérios de saúde que podem ser causados pela obesidade (hipertensão, doença coronariana, diabetes adulto, derrame, doença na bexiga, osteoartrite, apnéia do sono, problemas respiratórios, câncer no endométrio, de mama, de próstata e de cólon, dislipidemia, esteatohepatite, resistência à insulina, falta de ar, asma, hiperuricemia, irregularidades hormonais, síndrome do ovário policístico, infertilidade e dor nas costas. Acham pouco?), e como algumas pessoas recorrem a cirurgias de estômago na tentativa de controlar uma obesidade mórbida.

Um mês depois, Morgan estava 11 quilos mais gordo, estava com disfunção hepática,com sintomas de depressão, seu nível de ácido úrico subiu às alturas e seu condicionamento físico e sua libido despencaram (ele “combinou” que não andaria mais que o americano médio consumidor de Big Macs anda por dia, o que reduziu sua atividade fisica quase a zero).

Ele levou um mês desintoxicando o organismo (com a ajuda da namorada, uma chef vegetariana, que criou uma dieta desintoxicante para ele), e mais 9 meses para retornar ao peso anterior (84 kg). Nas notas finais, ele explica que, após o filme ser exibido em Sundance (onde ganhou o prêmio de melhor Diretor), o McDonald´s retirou a porção super size dos cardápios. E as garotas que processaram o McDonald´s… bem, elas perderam o processo, pois não ficou provado que os problemas de saúde foram causados pelos Big Macs ingeridos.Ao final do documentário, ficamos com vontade de comer um grande prato… de salada. Sério, as refeições desintoxicantes preparadas pela namorada de Morgan parecem muito mais atraentes que os inúmeros big macs, milk-shakes, mac chickens, quarteirões e fritas que vimos na última hora e meia. E são mesmo.

Cristine Martin Para maiores informações:

www.supersizeme.com (site oficial) Morgan Spurlock (artigo na Wikipédia)

(weblog de Morgan)