Rato de Biblioteca



15/02/2007

Petição - Pelo Fim da Impunidade no Brasil

Filed under: A Vida Real — Cristine @ 18:57

Quem não ficou indignado e enojado com o crime absurdo que aconteceu no Rio? Há alguns que propõem um referendo para perguntar sobre a adoção da pena perpétua e de morte  no Brasil. Eu sou contra.  Não acredito na eficácia da pena de morte. Acho que tirar a vida de um ser humano é algo que cabe somente a Deus; mas este crime bárbaro repugna a qualquer ser humano digno deste nome.
Contudo, algumas medidas podem ser tomadas; há uma outra petição online, pelo fim da impunidade no Brasil. Ela defende o aumento da pena máxima no Brasil de 30 para 60 anos, a redução da maioridade penal para 16 anos, e que não haja progressão de regime para crimes hediondos, tendo os condenados que cumprir a pena integralmente em regime fechado (60 anos).

Quem desejar assinar esta petição, vá para http://www.petitiononline.com/07022007/petition.html e assine agora. Eu já assinei. Talvez estas medidas sozinhas não resolvam, mas é um passo a ser tomado para tentar acabar com essa onda absurda de violência e falta de respeito pela vida.
Cristine Martin

14/02/2007

O “meme das 3 atitudes eco-conscientes”

Filed under: Vida de Rato — Cristine @ 08:40

Passeando por minha lista de blogs no Bloglines, li um post da Leilac (http://www.verbeat.org/blogs/stuckinsac/) e acabei conhecendo o site Faça a Sua Parte (http://facaasuaparte.blogspot.com/index.html ). Eles pedem para os blogueiros listarem três (ou mais) atitudes eco-conscientes que praticam, e passar a idéia adiante. Muito legal, acho que é por aí que começa. Cada um fazendo a sua parte e conscientizando mais pessoas, quem sabe teremos um planeta mais decente para nossos netos… Minhas atitudes:

  • Reciclar, reciclar, e reciclar - Há alguns anos que, aqui em casa, separamos todo o lixo passível de ser reciclado; na verdade, é muito simples: basta reservar um local da casa com três ou mais caixas ou sacos plásticos: para papel, plástico, alumínio, metais (latas comuns), e vidro. Aí é só avisar todo mundo da casa que, se abrir uma embalagem de biscoito, coloque na lata e jogue a embalagem no saquinho “plástico”. Abriu uma lata de ervilhas, depois lave e coloque no saco “metais”. Com o tempo, isso vira hábito.
    E o que fazer com o lixo? se perto de casa não houver um local específico para levar, ou coleta seletiva, uma idéia é avisar aquele pessoal que toca a campainha e pede “Moça, não tem papelão, latinha?” que sim, você tem, e se quiser passar toda semana eu separo pra você. Pronto, você ajuda a quem precisa e faz a sua parte.
  • Apagar as luzes - Outra idéia simples; ao sair de um cômodo, apague as luzes. De preferência, após tê-las trocado por fluorescentes compactas, que são bem mais econômicas. Desde a época do apagão, trocamos todas as lâmpadas. Aliás, os hábitos de economia daquela época foram mantidos.
  • Economizar combustível - Organizar os horários da família para fazer menos viagens de carro; se possível, programar as idas ao centro da cidade e fazer tudo na mesma “viagem”; e, se não estiver chovendo, ir a pé até a padaria.
  • Horta - Esta idéia une o útil ao agradável; pra quem tem um cantinho de quintal que não esteja cimentado, uma horta é um passatempo gostoso e além disso, produz delícias! Aqui em casa fizemos uma pequena horta e temos comido muita alface, couve, escarola e outras verduras fáceis de cultivar. Sei com certeza que não tem agrotóxico nas verduras, pois fui eu quem as plantou.
  • Aquecimento solar - Outra ótima idéia; quem está construindo ou reformando pode instalar um sistema de aquecimento solar de água em casa; a economia de energia elétrica é assustadora, e a água esquenta mesmo. Os sistemas comerciais são um pouco caros, mas o investimento se paga em pouco tempo com a economia feita. E estamos aproveitando uma energia limpa e gratuita.
    Para quem quiser uma alternativa mais econômica, no site Sociedade do Sol ( http://www.sociedadedosol.org.br/projeto_aquecimento.htm ) há um projeto de aquecedor solar econômico. Dê uma olhada!
  • Use o varal - num país com tanto sol, usar regularmente a secadora é uma estupidez. A minha está encostadinha faz muito tempo, enquanto minhas roupas secam ao sol.
  • Trabalhe em casa - Como tradutora, posso trabalhar em casa e aproveitar o tempo que seria gasto em trânsito para trabalhar e cuidar de outras coisas. Quando isto não for possível, uma idéia é tentar trabalhar o mais perto de casa possível. Isto economiza tempo, combustível e paciência.
  • Estas são apenas algumas das atitudes possíveis de serem tomadas. Para mais sugestões, visite o site de Al Gore (An Inconvenient Truth : http://www.climatecrisis.net/takeaction/whatyoucando/ . E passe esta idéia adiante!

    Um abraço,

    Cristine Martin

    13/02/2007

    Garota, Interrompida

    Filed under: Estante de Livros — Cristine @ 14:19

    Girl, Interrupted (Garota, Interrompida)

    Imaginem uma garota de 18 anos. Rica, boa família, pais inteligentes, bem-sucedidos, muito ocupados. Ela não se interessa pelos estudos, com exceção de literatura e biologia (matéria em que leva bomba duas vezes). Ao se concentrar em alguma tarefa, como os deveres da escola, freqüentemente sua atenção é desviada e começa a esfregar os pulsos na borda da cadeira, mas pára antes de se ferir seriamente. Tem vários namorados, e se encantou com um professor de inglês. Fica muito tempo pensando e imaginando a própria morte e, em uma ocasião, enfileirou 50 aspirinas sobre a mesa, engoliu uma por uma e foi até o supermercado (para ser encontrada?). Desmaiou em frente ao açougue e foi levada ao hospital, onde esvaziaram seu estômago. Diante de uma garota assim, pensamos em terapia (para ela e para os pais, terapia familiar, talvez?), ou em alguma atividade que realmente desperte seu interesse, quem sabe algum trabalho voluntário, ou podemos até achar que a tal garota faz parte de alguma turminha “emo”. Não cremos que seja caso para um hospital psiquiátrico. Mas em 1967, foi. Neste livro de memórias, Susanna Kaysen fala dos quase dois anos que passou internada em um hospital psiquiátrico, de 1967 a 1968. Depois de uma consulta a um psiquiatra que nunca havia visto antes, este (após comentar que ela tinha uma espinha) sugeriu que ela se internasse em um hospital, para “um descanso”. Ela foi posta em um taxi até o Hospital McLean, conhecido por ter “hospedado” famosos e criativos como Sylvia Plath, James Taylor, Ray Charles e Robert Lowell, e não tão famosos cujas famílias pudessem pagar pela estadia. Como Susanna observa, “Nosso hospital era famoso e havia abrigado muitos grandes poetas e cantores. O hospital se especializou em poetas e cantores, ou será que os poetas e cantores se especializaram na loucura?”.

    O livro não segue uma estrutura narrativa linear; são capítulos isolados, contando incidentes vividos ou testemunhados por Susannna, que nos mostram o cotidiano das internas, o relacionamento com o pessoal (enfermeiras e médicos) e, no final do livro, um balanço que a autora faz de seu diagnóstico e do que é a doença mental, de como os psicólogos e psiquiatras têm uma abordagem diferente do paciente (segundo ela, os primeiros tratam a mente, e os últimos, o cérebro, interessando-se somente pelas reações químicas que acontecem lá). Por fim, ela conta que conseguiu levar uma vida normal (seja lá o que isto signifique); lendo este livro nos perguntamos o que é normal, e se todos nós não temos problemas e comportamentos que poderiam ser classificados como problemas mentais, e quão fina é a linha que separa a pessoa sã daquela diagnosticada como doente mental. Susanna diz que, na adolescência, só se interessava por literatura e namorados; perguntaram-lhe se ela pretendia viver só disso. No final do livro ela comenta que foi exatamente o que fez, pois tornou-se escritora e continua tendo muitos namorados. Não se encaixar em um modelo predefinido pela sociedade pode ser considerado doença mental?

    Ela foi mais tarde diagnosticada como tendo Transtorno de Personalidade Limítrofe (borderline personality disorder). Em sua defesa, ela argumenta que os sintomas da doença são comuns na adolescência (critérios diagnósticos 2, 3, 6 e 7 - ver lista abaixo), e que a doença “é mais freqüentemente diagnosticada em mulheres”, o que interpreta como um preconceito sexista. Promiscuidade, segundo ela, é um conceito diferente, em termos (e números) absolutos e relativos, para homens e para mulheres; compulsão alimentar e de compras seriam sintomas mais tipicamente femininos, enquanto que direção imprudente seria um comportamento masculino (não necessariamente considerado mau). Como a doença nem era conhecida na época, ela sofreu com a falta de um diagnóstico preciso, sem saber na verdade de que sofria. Dois anos após a internação, ela conseguiu ter alta do hospital, e conseguiu levar uma vida normal. Casou, separou, tentou alguns empregos e decidiu ser escritora. Nada diferente da vida de muitas pessoas…

    Critérios Diagnósticos Um padrão invasivo de instabilidade dos relacionamentos interpessoais, auto-imagem e afetos e acentuada impulsividade, que começa no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos, como indicado por cinco (ou mais) dos seguintes critérios:

    Critérios diagnósticos para F60.31 - 301.83 Transtorno da Personalidade Borderline:

    1 -esforços frenéticos para evitar um abandono real ou imaginado. Nota: Não incluir comportamento suicida ou automutilante, coberto no Critério 5[617] 2 - um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização

    3 - perturbação da identidade: instabilidade acentuada e resistente da auto-imagem ou do sentimento de self

    4 -impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente prejudiciais à própria pessoa (por ex., gastos financeiros, sexo, abuso de substâncias, direção imprudente, comer compulsivamente).

    5 - recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de comportamento automutilante

    6 - instabilidade afetiva devido a uma acentuada reatividade do humor (por ex., episódios de intensa disforia, irritabilidade ou ansiedade geralmente durando algumas horas e apenas raramente mais de alguns dias)

    7 - sentimentos crônicos de vazio

    8 - raiva inadequada e intensa ou dificuldade em controlar a raiva (por ex., demonstrações freqüentes de irritação, raiva constante, lutas corporais recorrentes)

    9 - ideação paranóide transitória e relacionada ao estresse ou severos sintomas dissociativos(fonte: Wikipédia) http://pt.wikipedia.org/wiki/Transtorno_de_personalidade_lim%C3%ADtrofe

    Amigo é coisa pra se guardar…

    Filed under: Vida de Rato — Cristine @ 14:05

    Amigo é coisa pra se guardar…

    …com muito carinho, do lado esquerdo do peito, ainda que tenhamos perdido o contato.

    Era uma vez duas amigas. Conheceram-se na faculdade, aos poucos ficaram amigas. Durante os quatro anos de curso, a amizade foi crescendo, se consolidando, e as duas acabaram se tornando as melhores amigas, daquelas de se abrir a alma, de ser quem se é e falar bobagem, de compartilhar alegrias e tristezas, de brigar (quase nunca) e dar risada juntas (quase sempre).

    A faculdade acabou, elas seguiram seu caminho. Que começou com o casamento de uma (e a outra foi a madrinha), e com a outra voltando para sua cidade. Com a distância, as trocas de cartas, telefonemas, algumas visitas. Aos poucos foram perdendo o contato, e o tempo foi passando.

    E o tempo passou. Dezenove anos depois da última carta (quem escreveu a última carta? nem me lembro…), mas sempre na lembrança. No dia do aniversário, o pensamento de parabéns enviado aos céus na esperança que a amiga o receba, de algum modo.

    E chegamos à era da Internet. Todo mundo diz que o Orkut é ótimo para se encontrar pessoas que não se via há muito tempo, que tal experimentar? Vamos lá.

    Eu não tenho perfil no Orkut. Mas minhas filhas têm. Filha, empresta o seu perfil, preciso procurar uma pessoa. Procura de cá, procura de lá, até que achei. E lá estava minha amiga. A mesma carinha séria que eu me lembrava. E um perfil sério também, nada de bobagens, poucos amigos (só os mais chegados), poucas comunidades. Mudou de carreira, mudou de país. Era ela mesmo, reservada para o mundo, mas o bichinho brincalhão que eu me lembrava, por dentro.

    Mandei uma mensagem numa garrafa; ou seja, mandei um scrap. Meio tímido, me apresentando, lembra de mim, sei lá, vai ver que ela já esqueceu daquela amiga boba da faculdade, mas não custa tentar.

    Alguns dias depois (bem que eu achei que o Orkut não era mania para ela, mas apenas um utilitário), minha filha me avisa: Mãe, sua amiga respondeu!

    E respondeu mesmo! Um scrap simpático, dizendo que ficou felicíssima por me encontrar, mandou-me o seu endereço de e-mail (e disse que já havia me mandado um e-mail), era minha amiga de volta! Já começamos a trocar mensagens e contar tudo tudo, afinal, são 19 anos de novidades para pôr em dia…

    É mesmo uma alegria reencontrar  uma amizade depois de tanto tempo. Pensamos que com o tempo as pessoas saem de nossas vidas, outras surgem, que a vida não pára e que é bobagem, saudosismo, fixar-se no passado. De certa forma é mesmo. Vamos viver o presente, esperar o futuro. Mas as pessoas do passado que realmente significaram algo para nós na verdade não saem de nossas vidas. Elas ficam do lado esquerdo do peito, mesmo que o tempo e a distância digam não. Às vezes temos a sorte de poder reencontrá-las, às vezes não. Ás vezes nem podemos, pois para onde elas foram nós não podemos seguir. Mas sempre temos a opção de lembrar, e enviar um pensamento para os céus.

    Com certeza todos o recebem, ainda que nem todos possam responder. Mas é mesmo uma alegria quando conseguimos reencontrar uma pessoa assim. Bem-vinda, minha amiga!

    Cristine Martin

    escrito em 19/9/06

    10/02/2007

    Super Size Me

    Filed under: Estante de Filmes — Cristine @ 20:35

    Após a vitória do Oscar de melhor documentário por Bowling for Columbine (Tiros em Columbine), de Michael Moore, os documentários, que até há algum tempo eram aqueles filmes sem-graça que davam sono, passaram a ser filmes comercialmente viáveis, com produção caprichada e roteiro idem, que atraem pessoas ao cinema (coisa inimaginável tempos atrás), e estão ficando cada vez melhores. É o caso deste documentário, Super Size Me (subtítulo em português - a Dieta do Palhaço). O produtor/diretor/cobaia (conforme ele se anuncia em seu site) Morgan Spurlock resolveu realizar o filme após ver uma notícia sobre duas adolescentes obesas que estavam processando a rede de fast-food McDonald´s. Roteirista de sucesso, ele trabalhou em vídeo-clipes, comerciais e shows de TV. Este foi seu primeiro filme de longa-metragem.

    O filme começa mostrando fatos e dados sobre o crescente aumento da obesidade na América. 37% das crianças e adolescentes americanos são obesos, e 2 em cada 3 adultos estão acima do peso ou obesos.A Organização Mundial da Saúde declarou a obesidade como uma “epidemia global”. Se nada for feito, a obesidade irá superar o fumo como a maior causa evitável de morte da América. De quem é a culpa: da pessoas que não conseguem se controlar, ou das corporações de fast-food? Ele então anuncia sua decisão de passar um mês se alimentando exclusivamente de produtos vendidos em lojas doMcDonald´s. Ele determinou para si mesmo algumas regras:

    1. Sem opções: ele só poderia consumir o que viesse das lojas (incluindo a água);
    2. Só consumir as porções super size quando fossem oferecidas (e ele não as poderia recusar);
    3. Sem desculpas: ele deveria comer cada item do cardápio ao menos uma vez.

    Antes de começar a maratona, ele visitou três médicos (um cardiologista, um gastro enterologista e um clínico geral) e uma nutricionista,que o monitorariam periodicamente durante o mês da experiência, e fez um check-up completo. Seu peso era normal, sua saúde boa, e todos os profissionais concordaram que a idéia era uma estupidez completa.

    Durante o mês da “experiência”, ele visitou 20 cidades americanas (ou pelo menos seus McDonald´s), incluindo Houston, a “Cidade mais Gorda” da América. Das 9 vezes que as porções super size foram oferecidas, 5 foram no estado do Texas (e a primeira ele não agüentou comer inteira, depois de meia hora tentando acabar com o lanche, ele “devolveu” tudo). O estilo de vida americano, incluindo a dificuldade de se fazer as refeições em casa, fazem que 40% das refeições dos americanos sejam feitas fora de casa (1 em cada 4 americanos visitam um restaurante fast-food por dia. O McDonald’s representa 43% deste mercado). Vemos lojas McDonald´s até em um hospital (segundo Morgan, fica mais fácil conseguir auxílio médico quando sua saúde se estragar por causa da comida).

    Além de acompanhar a “dieta” de Morgan (de 5000 kcal por dia, o dobro do recomendado para um adulto médio), somos apresentados a alguns programas de merenda, alguns deles caros e cheios de itens não nutritivos, e um programa implantado em uma escola de Michigan, com o apoio dos pais dos alunos, que oferece apenas refeições nutritivas (e por um preço mais baixo que os programas tipo fast-food). Além do mais, este programa de merenda é acompanhado de um incentivo à atividade física, o que normalmente não acontece nas escolas americanas.

    O documentário mostra como a comida fast-food pode viciar, como uma droga (O McDonald´s chama as pessoas que consomem muito de seus alimentos de “Usuários Pesados”); mostra os muitos problemas sérios de saúde que podem ser causados pela obesidade (hipertensão, doença coronariana, diabetes adulto, derrame, doença na bexiga, osteoartrite, apnéia do sono, problemas respiratórios, câncer no endométrio, de mama, de próstata e de cólon, dislipidemia, esteatohepatite, resistência à insulina, falta de ar, asma, hiperuricemia, irregularidades hormonais, síndrome do ovário policístico, infertilidade e dor nas costas. Acham pouco?), e como algumas pessoas recorrem a cirurgias de estômago na tentativa de controlar uma obesidade mórbida.

    Um mês depois, Morgan estava 11 quilos mais gordo, estava com disfunção hepática,com sintomas de depressão, seu nível de ácido úrico subiu às alturas e seu condicionamento físico e sua libido despencaram (ele “combinou” que não andaria mais que o americano médio consumidor de Big Macs anda por dia, o que reduziu sua atividade fisica quase a zero).

    Ele levou um mês desintoxicando o organismo (com a ajuda da namorada, uma chef vegetariana, que criou uma dieta desintoxicante para ele), e mais 9 meses para retornar ao peso anterior (84 kg). Nas notas finais, ele explica que, após o filme ser exibido em Sundance (onde ganhou o prêmio de melhor Diretor), o McDonald´s retirou a porção super size dos cardápios. E as garotas que processaram o McDonald´s… bem, elas perderam o processo, pois não ficou provado que os problemas de saúde foram causados pelos Big Macs ingeridos.Ao final do documentário, ficamos com vontade de comer um grande prato… de salada. Sério, as refeições desintoxicantes preparadas pela namorada de Morgan parecem muito mais atraentes que os inúmeros big macs, milk-shakes, mac chickens, quarteirões e fritas que vimos na última hora e meia. E são mesmo.

    Cristine Martin Para maiores informações:

    www.supersizeme.com (site oficial) Morgan Spurlock (artigo na Wikipédia)

    (weblog de Morgan)

    9/02/2007

    Casa de Areia e Névoa

    Filed under: Filme X Livro — Cristine @ 17:50

    Por ocasião dos Oscars de 2004, ouvi falar deste filme; três indicações (melhor ator, Ben Kingsley; melhor atriz coadjuvante, Shoreh Agdashloo, e melhor trilha sonora), me pareceu muito bom. Mas como eu realmente não tenho pressa em assistir aos lançamentos, só fui assisti-lo quando passou na TV paga. O filme realmente é muito bem feito, boa fotografia (o diretor, Vadim Perelman, era diretor de comerciais quando leu o livro , adorou e decidiu realizar seu primeiro filme de longa metragem; escreveu o roteiro em conjunto com o autor do livro (André Dubus III) e o resultado é um visual deslumbrante e um roteiro bem fiel ao livro), os atores estão ótimos… mas aí vem a história.

    Kathy é uma mulher que foi abandonada pelo marido, ambos ex-viciados, e que após a separação deixou de abrir a correspondência, entre outras coisas típicas de quem passou por uma dessas. Mas na correspondência descartada estava uma cobrança de taxas municipais (cobradas indevidamente), o que faz com que ela perca a casa e esta vá a leilão.

    Massoud Behrani é um ex-oficial iraniano que teve de abandonar seu país quando da queda do Xá; americano naturalizado, ele mora com a família em São Francisco, e trabalha como operário de limpeza de estradas durante o dia e de balconista em uma loja de conveniências, à noite. Mas a família e os conhecidos não sabem disto; ele mantém uma imagem de prosperidade, gastando aquilo que não pode para alugar um apartamento de luxo no bairro onde moram os iranianos ricos, e relacionar-se com pessoas prósperas, para que possa casar bem sua filha. Após o casamento dela, ele decide investir o pouco capital que lhe resta em uma casa comprada em leilão, revendê-la pelo preço de mercado e iniciar uma carreira de especulação imobiliária.

    Acontece que a casa comprada em leilão é a de Kathy, que de repente se vê sem ter aonde ir, sem marido, sem amigos, e sem ter contado nada à família , nem mesmo sobre a separação. Um policial (Lester) aproxima-se dela e aos poucos surge um envolvimento entre eles, que cresce e faz que ele abandone sua família.

    Nem Kathy abre mão de conseguir sua casa de volta (dela e do irmão, herança do falecido pai), nem Behrani abre mão de ficar com a casa e obter lucro (merecido, segundo ele) com sua venda. As coisas começam a se complicar quando Lester resolve intervir em defesa de Kathy, e a partir daí tudo acontece muito rápido, decisões, emoções e atitudes com conseqüências inesperadas e um final trágico.

    Fiquei realmente sem fôlego ao fim do filme; como as pessoas, por teimosia, cobiça, preconceitos e medo, podem tomar atitudes que acabam levando a um caminho sem volta? Como as coisas poderiam ser diferentes se a cadeia de acontecimentos tivesse sido interrompida; como um mau julgamento ou uma impressão errada sobre os sentimentos de outra pessoa pode levar a uma atitude precipitada… É um daqueles filmes que nos deixa pensando por dias, sobre o que aconteceu e o que ‘poderia’ ter acontecido se… e graças a Deus que é apenas ficção.

    Filme x Livro

    Algum tempo depois li o livro (em inglês; ainda não foi traduzido para o português). A primeira parte é narrada em primeira pessoa, alternadamente entre Kathy e Behrani; esse recurso mostra claramente o pensamento de cada um, os preconceitos e a negação que cada um faz de seus próprios defeitos ou problemas; ela, ao racionalizar seu vício (álcool, no filme, e cocaína e álcool, no livro), atribuindo boa parte da culpa ao ex-marido viciado; ele, ao atribuir sua decadência material às injustiças sofridas pela elite militar que ajudava o ex-Xá do Irã, e atribuindo a culpa de tudo ao serviço Secreto (SAVAK), que, com sua truculência, ajudou a causar a revolta que levou à queda do regime do Xá. Ambos se sentem injustiçados, e não abrem mão do que crêem ser seu por direito. Behrani não entende a revolta da esposa, e seu caráter melancólico desde que a família teve de deixar o Irã; afinal, ele não fez o possível para proteger a família? “ Pois ela estava muito errada a respeito do meu envolvimento com a polícia secreta, SAVAK. Eu pouco tinha a ver com os assuntos deles. E é claro, ela nunca antes reclamou de todos os nossos privilégios; ela nunca reclamou das criadas e soldados que ela usava na manutenção da casa; ela nunca reclamou das viagens para esquiar nas montanhas do norte, ou de nosso bangalô, sobre o Mar Cáspio em Chahloose; ela nunca reclamou dos vestidos finos que ela podia usar nas festas dos generais e juízes e advogados e atores e cantores famosos; ela nunca reclamou quando numa tarde de domingo eu ordenava a Bahman para levar minha família ao cinema mais fino em Teerã e é claro havia uma longa fila de pessoas esperando, mas eu estava vestido em meu uniforme então nós nunca esperávamos, nós nem mesmo pagávamos; éramos conduzidos ao balcão reservado às Pessoas Muito Importantes, longe da multidão. E sim, eu via com freqüência o medo por trás dos sorrisos daqueles gerentes de cinema enquanto eles acenavam e nos conduziam pessoalmente aos nossos assentos, e sim, ninguém que esperasse na calçada ousava fazer uma queixa que eu pudesse ouvir; mas não havia sangue em meus dedos. Eu comprava jatos. Eu não era da SAVAK.” No livro também é mais claro o preconceito dos personagens: Behrani pensa que os americanos são um povo fraco, sem disciplina, que não merecem a prosperidade que têm; em sua narrativa, ele se refere a Kathy como gendeh, prostituta, talvez pelas suas roupas, ou pela bebida. Em um momento de confronto com Kathy, ele lhe diz: “Em meu país, você não seria digna de erguer seus olhos para mim. Você é nada. Nada.” A atitude em relação às mulheres também se revela em seus comentários sobre a esposa, Nadereh: “Minha esposa tem cinqüenta anos, mas ela falava como uma garotinha, uma recém-casada. Eu pensei que talvez ela estivesse desapontada comigo, mas então reparei em seu sorriso, no modo como ela mantinha seu queixo baixo, olhando para mim com aqueles olhos de gavehee, e enquanto ela tomava minha mão e me levava pelo corredor de volta a seu quarto, meu coração era uma pedra pesada caindo na água e minha respiração estava suspensa como a de um garoto que avalia sua boa fortuna.” Outro episódio revelador é a morte da prima, Jasmine, morta com um tiro pelo pai quando este soube do caso amoroso da filha com um americano; Behrani diz que, apesar do comportamento impróprio da prima, nunca agiria como o tio, resolvendo as coisas com um revólver: “Eu odiei meu tio, acreditando que ele agiu arrebatadamente e com muita paixão. Nós somos uma família educada; não precisamos viver como a classe de camponeses, resolvendo nossas questões com sangue derramado”. Em outro momento ele admite que já “levantou a mão” para a esposa: “Eu nunca aprovei a violência contra a mulher, apesar que sim, eu bati em minha esposa em uma ocasião, mas me arrependi profundamente do incidente. Uma vez em nossa casa em Teerã, eu bati na face de Nadi por erguer a voz para mim na presença de um jovem oficial. Seus olhos se encheram de tristeza e humilhação e ela saiu chorando da sala. Mais tarde naquela noite, quando ela ainda não falava comigo, eu levantei a manga de minha camisa, acendi um charuto turco e pressionei a brasa em minha carne. Eu queria chorar mas não o fiz. Acendi o charuto de novo e me queimei novamente. Fiz isto cinco vezes, e pedi perdão a Deus a cada queimadura da minha carne.” O preconceito também fica evidente na pessoa de Lester, que considera o iraniano um cidadão de segunda categoria, que roubou a legítima propriedade de Kathy; e no modo como os trata e se sente a seu respeito: “Lester estava com sede e queria beber do chá que a mulher do coronel lhe servira, mas fazê-lo naquele momento pareceria um movimento conciliatório, como se ele fosse um cão expondo sua garganta a um cão mais forte. Ele olhou novamente para a foto emoldurada na parede, de Behrani discursando para o Xá do Irã, um homem sobre quem Carol contara, há muitos anos, ter mandado fuzilar centenas, talvez milhares de pessoas em uma tarde por terem ousado um protesto desarmado contra ele e sua comitiva. ( … ) Ele começou a se sentir amedrontado, e quis chutar o coronel nos dentes, este amigo de ditadores, este homem que se recusou a vender de volta a Kathy sua casa “.

    Na segunda parte do livro (talvez pelos fatos escaparem à ciência dos dois personagens principais), aparece um narrador em terceira pessoa, onisciente, nos momentos em que Lester conduz a ação e Kathy e Behrani não estão presentes. Essa mudança de foco narrativo destoa um pouco do começo do livro, mas não estraga o rumo da história. No filme, o final trágico é atenuado em parte por não mostrar as reais conseqüências para Kathy e Lester, focalizando apenas na tragédia em si. No livro, as conseqüências são mais claras, mostrando as perdas e danos de todos os personagens.

    ATENÇÃO: SPOILER (não leia se você ainda não viu o filme ou não leu o livro)

    Esta é uma história trágica porque todos os personagens perdem, de algum modo; alguns, a vida; outros, todo o resto. Vemos toda a família Behrani destruída, por causa do caráter controlador de Massoud; ele não admite perder a casa que tornou-se seu único investimento e chance de ascensão social; não admite ter de retornar à condição de trabalhador braçal, ou ter de iniciar uma carreira que não a anterior, na indústria aeronáutica (inviabilizada por seu passado no antigo regime iraniano). Por isso, em um momento de atitude impensada do filho, ele o encoraja a tomar a atitude que, agora sabemos, é a pior possível. Depois da tragédia consumada, ele tenta ‘poupar’ Nadereh do trauma iminente, e tira-lhe a vida por ‘saber’ que ela não o suportaria, e por achar que é seu dever ‘protegê-la’. Por fim, antes de tirar a própria vida, deixa uma carta para a filha, dizendo a ela o que fazer com a casa. Interesante é sua atitude em relação a uma força superior; no momento do desespero, ele diz que vai fazer nazr, que vai entregar a casa a Kathy se a vida do filho for poupada. Quando isto não acontece, ele impede que a casa fique com Kathy, dizendo (em testamento) que a deixa para Soraya, a filha. É uma atitude curiosa, de tentar barganhar com Deus. Até neste momento ele tenta controlar o desenrolar das circunstâncias, como esteve acostumado toda sua vida. Lester, que aproveitou o incidente com Kathy para dar a virada em sua vida que sempre desejou fazer e nunca teve coragem, acaba perdendo a liberdade, Kathy, e a vida em família. Por suas atitudes em pressionar Behrani, mesmo infringindo a lei, ele acaba responsabilizado criminalmente pela tragédia. Mais uma vez vemos o caráter controlador em ação. Ele acha que pode desviar um pouquinho a letra da lei, para cumprir o espírito da mesma (plantar evidências para ‘salvar’ uma mulher vítima de violência doméstica; não prender o menino filipino, por um sentimento paternal e por achar que este era vítima das circunstâncias; pressionar Behrani para ajudar Kathy por acreditar que ela estava sendo fraudada por ele na questão da casa, além do detalhe que a casa seria seu futuro lar com Kathy). Ao fazê-lo, acaba se enredando em uma situação cada vez mais sem saída. Quanto a Kathy, não vemos um caráter controlador, mas uma pessoa que não tem coragem em tomar o controle de seu destino. Ficamos sabendo que ela acabou mergulhada no vício através da companhia de seus dois ex-maridos (e alguns namorados, mas isto é meio vago). Freqüentou o Grupo de Recuperação Racional acompanhando o marido; quando este a abandona, ela mergulha numa apatia e nada faz para mudar sua situação. Tem medo que a família saiba de seu ‘fracasso’ e a culpe por tudo, vício, abandono e, por fim, a perda da casa herdada do pai. Seu medo da responsabilidade por seu destino é tal que ela prefere perder tudo a admitir a culpa, para a família. É interessante a cena final, em que ela decide continuar presa, fingindo ser “muda”, a ter de lutar por sua liberdade (mas culpando Lester por tudo). A viver sem ele, assumindo a responsabilidade por si dali por diante, ela escolhe continuar sem liberdade, sem voz e ‘protegida’ (desta vez pela detenta dominante do grupo que se apieda dela, ao pensar que esta é muda). É a vitória do medo. Ambos, filme e livro, são tocantes, mostrando o desenrolar de um drama trágico, numa espiral crescente de mal-entendidos, ações impensadas e escolhas insensatas. Vemos os personagens tomarem a decisão errada, e nada podemos fazer para mudar seu destino.

    Cristine Martin

    (texto escrito em 6/9/06)

    A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera

    Filed under: Estante de Livros — Cristine @ 08:34

    Nietzche afirma a idéia do eterno retorno, ou seja, que todos os acontecimentos da vida de cada um, e da história da humanidade, irão repetir-se inúmeras vezes; que tudo o que acontece já aconteceu antes e irá se repetir. Milan Kundera nega esta idéia, dizendo que o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, e que a ausência total de fardo faz com que os movimentos humanos sejam tão livres quanto insignificantes. O que escolher? O peso ou a leveza? Este é o tema central deste romance.

    Através da história de dois casais, Tomas e Tereza, e Franz e Sabina, ele mostra que todas as nossas ações não têm sentido, exatamente porque nossas ações não se repetem, e nossa vida não acontece senão uma vez. Isso confere leveza à nossa existência; nossos atos são leves porque suas conseqüências não importam; são insignificantes.

    Tomas e Tereza são impelidos um ao outro por uma série de acasos, e estão condenados a viver juntos, embora causando um ao outro grande dor. Eles acreditam que estas coincidências são uma marca do destino; Tomas lembra uma frase de um quarteto de Beethoven que diz: “Muss es sein? Es muss sein! Es muss sein!” (Tem de ser assim? Tem de ser! Tem de ser!) Ele considerava que seu amor por Tereza era um es muss sein em sua vida, uma força que o impelia, o destino. Este es muss sein também o impele à profissão médica, às mulheres, e a abandonar sua profissão quando se recusa a se retratar por um artigo escrito por ele, e que é considerado subversivo pelas autoridades comunistas (estamos em Praga, após a invasão russa de 1968).

    Tereza deseja libertar-se da invasão de sua privacidade simbolizada pela mãe, pelas limitações de sua vida, e encontra em Tomas os sinais do acaso ou destino: Beethoven, números coincidentes, livros. Ela acredita que somente o acaso tem voz; o que acontece todos os dias, e se repete, não é senão uma coisa muda. Os sinais que a ligaram a Tomas significavam para ela um outro mundo ao qual desejava pertencer, para escapar de sua vida sem sentido.

    Sabina, pintora tcheca e uma das inúmeras amantes de Tomas, também deseja fugir das limitações de sua vida, e encontra na traição o meio de se libertar. Somente traindo ela pode, ao negar, escolher um outro caminho. “Trair é sair da ordem. Trair é sair da ordem e partir para o desconhecido. Sabina não conhece nada mais belo que partir para o desconhecido”.

    Franz é um idealista; acredita que uma Grande Marcha da história irá levar a humanidade para a frente. Franz achava sua vida irreal, e desejava a vida “real” das revoluções, marchas e desfiles. Sabina representa, para ele, o ideal, simbolizado pela resistência de seu país ao domínio russo; conseqüentemente, representa seu ideal feminino; quando ela o abandona, ele toma coragem para mudar sua vida, mas tudo que faz é para os olhos de Sabina. Kundera mostra a futilidade dessas ações idealistas, especialmente no capítulo A Grande Marcha, onde vemos Franz em uma passeata na fronteira do Camboja, onde as ações idealistas não significam nada, pois são apenas palco para a vaidade humana, e não alteram o curso dos acontecimentos.

    Todas essas vidas, unidas por acasos, simbolismos, e palavras incompreendidas, têm uma insustentável leveza, pois seja qual for a decisão que tomemos, só se tem uma vida e não se pode compará-la com as vidas anteriores nem corrigir uma decisão errada em outra vida; tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação, e como diz um provérbio alemão citado por Tomas, Einmal ist keinmal, ou seja, uma vez não conta, uma vez é nunca. Negando Nietzche, ele afirma que a vida não tem sentido, pois “não poder viver senão uma vida é como não viver nunca”.

    Este é um romance sobre relacionamentos, mas que levanta questões filosóficas: será que a vida tem sentido? Ou será o niilismo defendido por Kundera a solução? Analisando o comportamento de seus personagens, ele levanta tais questões e deixa ao leitor a decisão final; afinal, ele mesmo defende que, qualquer que seja esta decisão, terá a leveza insustentável do ser.


    Cristine Martin

    (texto escrito em 18/04/06)